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Primeira vez
Há um fetiche sobre as “primeiras vezes” — primeiro sexo, primeiro beijo, primeiro amor, primeiro voto… O primeiro qualquer coisa é invulgar por mais vulgar que qualquer coisa seja; parece um truque que adciona importâncias eventuais a nossas vidas insignificantes. Eu não lembro a minha primeira vez de quase nada, não estava suficientemente atento quando…
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Aforismos
1 Não existe educação libertadora, é uma contradição de termos. O conhecimento pode ser libertador – a educação, não. O objetivo da educação é prover peças de reposição para o estado e para o mercado – “formar cidadãos e preparar para o trabalho”. O conhecimento libertador é aquele que deseduca. Falar na possibilidade de uma…
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Sobre joaninhas e estrelas
Era uma praça que tinha um céu quando anoitecia. Naquele céu havia estrelas, e debaixo delas havia bancos e canteiros. Nas plantas moravam joaninhas sempre tranquilas, e num dos bancos, sob o claro das estrelas, ficava um rapaz que olhava pra cima. Todas as noites o rapaz esperava para ver uma estrela que os olhos…
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Sobre linguagem e verdade
O erro de base em nossa relação com a verdade é achar que ela existe em algum lugar independente da linguagem, e que a linguagem a revela. A linguagem, ao contrário, esconde a verdade – sendo a palavra um recurso artificial, e sendo a verdade por definição. algo que existe “em si”, a palavra não…
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Onde as víboras se escondem
I Abruptamente, como quem acorda de um sono agitado de sonhos cíclicos, ele sentiu a agudeza da dor e das presas que se cravavam nas costas da mão que segurava a caneta. Contorcendo-se, todo o corpo, sacudiu o braço com aquela força que o susto e a dor fazem explodir nos músculos. Tal foi a…
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Mona
Durante o período de isolamento, na pandemia de covid, de vez em quando eu recebia uma mensagem do Renato Meneses com um texto para eu musicar. Um deles foi esse poema chamado Mona, que é uma declaração de amor à nossa cidade, Caxias. Eu gravei tudo em home studio e enviei para ser masterizado com…
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Meu Mir-ror
O zine é para povoar as margens e as frestas – é como lodo, é tal qual mofo. Baixe, leia, use.
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Um deus
À noite, as estrelas me contam histórias de um deus tão distante e manhoso. Gosto de ouví-las, sorrindo, e mando lembranças ao deus; acho-o engraçado. Elas dizem que ele está sentado à borda de algum planeta, e que ele faz das suas na cabeça dos buracos negros. Dizem que gosta de gente. Dizem também que,…
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Fantaxmagoria zero
Vivemos numa cidade fantaxma: de casas erguidas sobre tumbas de índios flagelados e deuses esquecidos; sobre os ossos secos dos balaios esfaqueados, cinzas de prostitutas suicidas, lembranças desbotadas de lugares em cima dos quais se construíram lugares, e em cima dos quais se construíram outros lugares. (A fantaxmagoria é a erupção de uma arqueologia —…
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A morena
A morena é uma nota sol deslizando meias-noites na temporada das chuvas. A morena é uma adivinhação, uma cantiga de roda e um desenho obsceno. Você não sabe o que é morena até que seu corpo sonhe correntes elétricas, fluxos de luz. A morena é a boca da morena, os olhos da morena, a voz…
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Uma menina me ensinou (isto não é sobre a canção de Renato Russo)
Li muito, por muitos anos. Filósofos, historiadores, poetas e romancistas. Também li idiotas e vigaristas. Li porque era preciso viver – e a vida é muito pouca para ser só uma. Li porque era preciso saber, e li porque era preciso escrever. Escrevi muito, por muitos anos. Escrevi como quem percorre a si mesmo em…
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Imagens de tempo
Eu devoro imagens vivas — imagens que se movimentam no olhar, que dançam tango no pensamento, que subvertem as estruturas prediais. Imagens habitam meus lábios – eu ouço imagens musicais e quando beijo a tua boca, eu sinto gosto de imagens na tua língua. Você vive em mim como imagens não imaginadas – rodopio de…
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Uma boca ser a tua
Como pode uma boca ser a tua? Ninguém é dono do tom alaranjado da Lua que vê às oito e trinta e sete da noite quando se lembra de buscar as roupas no varal. Ninguém é dono do raio que racha o céu quando uma chuva se prepara no fim de uma tarde de abril.…
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Tinta
Escrevo com о согро: mão, peito, curva da coluna. Escrevo com a boca, os cabelos, o músculo mais duro da minha coxa. Escrevo com o cheiro, o suor, o suspiro. Escrevo com meu olho que arde e lacrimeja, com o meu pé inquieto que tamborila o chão. Escrevo com esta minha língua bárbara que não…
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Arte X Cultura — palavra-cilada e a máquina de guerra
Precisamos reavaliar periodicamente a utilidade das palavras. Nesse texto eu gostaria de fazer anotações mais ou menos genéricas sobre a palavra cultura, a partir de alguns fragmentos de Guattari. No final, espero ter esclarecido por que penso que a arte deve atuar contra a cultura e não como parte dela. Um conceito reacionário Em 1982,…
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All Along The Watchtower – o apocalipse místico da poesia-rock
Áudio oficial da gravação original da canção por Bob Dylan A poesia de Bob Dylan é um nó que conecta o coração do homem sedento de superar a experiência contemporânea do capitalismo de controle — em que tudo é seguimentado, individualizado, produzido em linha de montagem e nadificado pelo preço — a uma experiência estética visceral que remete à…
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“Gibi não é literatura” — a polemização do óbvio
Michel Foucault disse uma vez que não gostava de polêmicas — polêmicas são burras, nunca um pensamento saiu de uma polêmica, disse ele. De fato, a polêmica está para o pensamento como a briga de bêbados está para as artes marciais. E que o Brasil é um país burro, eu não me sinto na obrigação…
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Lista tríplice
Não sou nem tento ser um “homem desconstruído”. Pra começo de conversa, sequer construído jamais fui. Mas tenho minha curta lista de desconstruções: deus, pátria e família, antes da meia-noite, e eu iria dormir feliz.
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Memórias de um velho artista no exílio
Revisitando as minhas memórias, eu percebo que desde muito cedo eu fui atraído pela arte. Era uma história bem contada, desenhos bonitos num livro, belos textos para ler, memorizar e declamar.
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Música Independente, Arte e Mercado
Quando a indústria percebeu que ganharia muito mais se tivesse um exército de artistas medianos fazendo o trabalho mecânico de realizar uma fórmula era muito mais lucrativo do que ter um Fred Mercury, com todas as suas idiossincrasias e instabilidades – nesse momento, a indústria percebeu que o artista autêntico era uma perda de tempo…
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Tommy Shelby: tão mau quanto os poderosos – se quiser sobreviver
Todos nós nascemos neste mesmo tabuleiro e essas mesmas peças já estavam lá,- e nunca chega a nossa vez de jogar. Alguns, como eu, escolhem a burla, a trapaça. Tommy Shelby escolheu ser tão mal quanto os poderosos.