Michel Foucault disse uma vez que não gostava de polêmicas — polêmicas são burras, nunca um pensamento saiu de uma polêmica, disse ele. De fato, a polêmica está para o pensamento como a briga de bêbados está para as artes marciais. E que o Brasil é um país burro, eu não me sinto na obrigação de argumentar, mas que esse estranho gosto do brasileiro por polêmicas seja um sintoma de burrice difícil de ignorar, isso eu destaco.
Por exemplo, na última semana, ganhou força um bafafá em torno da afirmação de que “gibi não é literatura”. O sujeito que afirmou era candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, e a frase tinha o objetivo de ironizar a candidatura à mesma casa do cartunista Maurício de Sousa, criador dos icônicos personagens e do traço inconfundível da Turma da Mônica. O sujeito que fez o bafafá é autor de um livro intitulado “Marketing hoteleiro como experiência”. Cá, cá!
Antes de prosseguir, e para garantir a segurança dos mais sensíveis, devo adiantar:
1 Maurício de Sousa é um grande artista, sua obra participou da educação e da iniciação à leitura de muita gente, inclusive este não-polemista que agora cacareja.
2 A Academia é de “letras”, não de Literatura — nada a obriga a eleger apenas literatos. Gilberto Gil não é autor de Literatura (ainda mais essa, com maiúscula) — mas (pelo amor de deus, não me forcem a fazer trocadilhos ruins!), se alguém neste país é autor de letras, é ele!
3 Por fim, se o requisito fosse mesmo Literatura, convenhamos que “marketing hoteleiro” não é bem uma credencial.
De tudo o que eu disse acima, confesso, nada me interessa. É uma celeuma imbecil feita pra atrair e agradar (ou desagradar) imbecis. E eu sei que também sou imbecil — coisa de que você pode me acusar com razão — mas é algo que evito, sempre que posso. Uma maneira de evitar seria reconhecendo o fato simples e óbvio de que quadrinhos não são literatura. Não há polêmica nenhuma nisso. A frase é recebida como a ferroada venenosa de um grande provocador — é uma platitude.
Quadrinhos são arte, e têm sua especificidade enquanto linguagem artística. Quadrinhos não são Pintura, embora sejam pintados; não são Desenho, embora sejam desenhados; não são Literatura, embora sejam (e nem sempre são) escritos. São uma forma de expressão autônoma — Will Eisner, cujo gênio e autoridade ninguém é doido de questionar — cunhou o conceito “arte sequencial” para se referir aos quadrinhos; “narrativas gráficas” é outra nomeação recorrente. Nenhuma delas dá conta da especificidade das histórias em quadrinhos. Fotonovelas eram narrativas gráficas, mas não são quadrinhos. Cinema é arte sequencial, mas quadrinho não é cinema.
Aliás, a afirmação de que gibi não é literatura deveria ser tão evidente quanto a de que gibi não é filme, não é música, não é dança — e dizer essas coisas não diminui em nada o valor do quadrinho como arte. Deveria ser tão evidente quanto dizer que futebol não é surf, sem que isso negue o fato de que ambos sejam esportes. Provavelmente, o efeito da frase vem dos ares de nobreza que a palavra “Literatura” ainda exala — uma arte de elite, a forma de expressão da elite letrada dos primórdios do capitalismo.
Na boa, deixa o gibi não ser literatura. Nem nós, que fazemos literatura, nós que temos os pés, o estômago, as mãos e as genitais (ah, o coração também) enfiados no desafio de fazer beleza com o material de todos mais vulgar — a palavra; nem nós, poetas e narradores, que colocamos nossa voz nessas manchinhas minúsculas e chatas que riscam páginas e páginas de livros, na esperança de que alguém veja nelas os nossos desenhos, quadros, sonoridades e fluxos, na esperança de que alguém reconheça ali lugares, pessoas, sentimentos, situações (e ironia); nem nós estamos mais preocupados em ser Literatura. A literatura não precisa ter seu conceito estendido para abarcar a liberdade do artista — o artista, de qualquer maneira, sempre estará para lá dos limites do conceito.
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