All Along The Watchtower – o apocalipse místico da poesia-rock

Áudio oficial da gravação original da canção por Bob Dylan

A poesia de Bob Dylan é um nó que conecta o coração do homem sedento de superar a experiência contemporânea do capitalismo de controle — em que tudo é seguimentado, individualizado, produzido em linha de montagem e nadificado pelo preço — a uma experiência estética visceral que remete à sensibilidade mais elementar.

Gostaria de alucinar aqui anotações sobre uma música (mítica?): All Along The Watchtower — que traz a imagem de uma utopia/distopia de trânsfugas.

A Canção

All Along The Watchtower foi escrita e gravada em 1967 por Bob Dylan, no álbum John Wesley Harding, e se inscreve numa série de poemas apocalípticos do bardo de Minnesota — como Times They Are A changin e Hard Rain Is Gonna Fall. Os 12 versos que compõem a canção narram o diálogo atemporal de duas figuras arquetípicas reincidentes da poesia dylaniana: o palhaço e o ladrão.

Ele [Bob Dylan] precisou de algumas horas para registrar o diálogo imaginário entre o joker e o thief. Uma mensagem meio enigmática e circular, uma melodia direta e reta, econômica e minimalista. Com destaque para a toada da bateria de Kenneth Buttrey.
“All Along the Watchtower” foi gravada no estúdio A da Columbia, Nashville, Tennessee. Além de Dylan na harmônica e no violão e Buttrey na bateria, tem Charlie McCoy no baixo e Bob Johnston na produção. (Efemérides de Éfemello)

Versão de estúdio de Jimi Hendrix, gravada em 1968.

A música ganhou, seis meses depois, uma versão devastadora de Jimi Hendrix, que já foi considerada por veículos especializados como o melhor cover da história. Sobre tal gravação, Herick Sales, em artigo na revista eletrônica de música Whiplash conta que:

O produtor e engenheiro de som Andy Johns , que viria a trabalhar também com Led Zeppelin e Eric Johnson, registrou a canção numa tarde de domingo, quando Hendrix chegou com um disco de Bob Dylan, dizendo que queria regravar tal canção. O músico Dave Manson disse que precisava de um violão de 12 cordas. Johns possuía um, que foi tocado pelos Rolling Stones em gravações, e foi buscá-lo em seu apartamento, mas como não tinha pago o aluguel, teve pegar o violão, escalar a janela do banheiro e desceu pela calha, para que o proprietário não o visse.

O Louco, o Ladrão e a Torre

Num texto muito interessante, o ensaísta Lucas Piccoli Weinmann relaciona essas personagens de Dylan às cartas do Louco e do Ladrão no Tarot. Conforme o autor:

O Louco é representado no Tarot por um jovem leve e solto. Ele é muitas vezes um bardo ou um músico, conectado com a criatividade. Ele frequentemente é representado sem dar atenção ao que acontece ao seu redor, talvez distraído com borboletas ou com a paisagem e não vê os precipícios ao redor. Ele quase sempre tem um animal: um cão ou um gato a sua volta que está tentando chamar sua atenção, muitas vezes o mordendo, para que ele não caia no precipício (outra imagem que está sempre próxima do Louco). O Louco é inquietação, atividade e a transformação que não vislumbra os perigos eminentes.

Sobre o Ladrão, o autor diz o seguinte:

O Ladrão, em alguns baralhos de Tarot, é representado pelo 7 de espadas. Ele é a traição e sua engenhosidade, ele é aquele que faz as coisas escondido: um estrategista que age em segredo mas fatalmente é descoberto.

Por tudo o que silencia, a canção de Bob Dylan parece situar a narrativa num tempo em que o próprio tempo deve ter-se esfacelado, em que as esperanças podem ter-se apodrecido: a fala do palhaço ao ladrão “Deve haver uma maneira de sair daqui” sugere que eles estejam ou se sintam numa prisão ou algo pior — talvez em um país devastado pela guerra ou num sistema cúbico e mecânico sem portas e janelas

Versão elétrica que Bob Dylan passou a tocar ao vivo após a morte de Hendrix

Não é à toa que Weinmann aproxima a watchtower — a torre de vigia, atalaia — de que a fala a canção do Panóptico de Bentham, apropriado por Foucault como o personagem-conceito principal de sua teoria dos dispositivos disciplinares: as personagens desviantes, percebem a exploração e a opressão — representadas pelos homens de negócios (rentistas) que bebem seu vinho, por fazendeiros (agronegócio) que escavam em suas terras, por mulheres e homens de pés descalços indo e vindo sob o olhar perscrutador dos príncipes (poder político).

A torre é vista pelo autor como signo da estrutura do Poder, além da qual o Louco e o Ladrão pretendem chegar.

Hino de Guerreiros

Não foi à toa também que esta música — com sua letra apocalíptica — na versão de Hendrix tornou-se uma espécie de hino sobre a Guerra do Vietnã.

Como os jovens americanos enfiados nas selvas vietnamitas poderiam não se identificar tanto com a figura do palhaço como com a do ladrão?

Como eles poderiam evitar de se verem traídos pelo capital e pela política americana, lançados num território inóspitos, onde no entanto não eram livres, entre pessoas vulneráveis — enquanto a torre de vigia (uma invenção da arquitetura militar) os fitava constantemente?

Em texto de Alexandre Guerra, no site O Diplomata, lê-se:

Mais “rasgada” e “eléctrica”, Hendrix edita a sua versão de “All Along the Watchtower” logo em 1968, celebrizando-se imediatamente, nomeadamente junto dos milhares de soldados americanos estacionados no Vietname. O que não é de estranhar, atendendo à naturalidade com que os primeiros refrões da música se adaptavam ao estado de espírito daqueles homens atolados no cenário de guerra vietnamita e sem fim à vista: “There must be some kind of way out of here, Said the joker to the thief, There’s too much confusion, I can’t get no relief.”

O autor se engana, entretanto, quando pensa que a música foi tomada como um “hino da guerra” — ela foi tomada como um hino dos guerreiros, pelos guerreiros, para os guerreiros.

Místicas: as revoluções dos páreas

Particularmente, enxergo em All Along The Watchtower a manifestação de um devir-menor e de uma sensibilidade que alcança as funduras da alma humana — aquela alma que atravessa a história, a alma do todo em cada um.

É certo que Dylan nunca quis ser um profeta — e sendo ele oriundo de família e cultura judaicas a tentação ao destino do profeta à qual sucumbiram outros gênios, como Marx, Freud ou Benjamin é um espectro a rondar — mas também é fato que a profecia que Dylan rejeitou foi a profecia como proselitismo político — ele nunca quis ser um mestre, um ensinador, um exemplo.

No entanto, existe algo de profundamente espiritual e verdadeiro em sua arte — pois toda arte genuína é espiritual e verdadeira — que só pode se aproximar da profecia em estado puro: revelação. Não revelação divina, não revelação etérea — revelação imanente ou desvelação, a imersão na profundeza da mente-corpo, da alma-experiência, da vida como acontecimento estético, estética da existência.

Clã místico — de um misticismo não necessariamente religioso — que atravessa os séculos como um emaranhado de fios de prata. Os fios se entrelaçam, fazem nós, fazem tranças — e no caosmo de suas voltas reviradas alinhavam Homero, Belchior, Rimbaud, Chico César, Paul Verlaine, Jim Morrison, Zeca Baleiro, Bob Dylan, Macalé, Torquato Neto e outras sombras fantasmáticas que entoam poesia com garganta e sangue.

São linhagens de bardos e menestréis, aedos e rapsodos — la musique avant: a tradição revolucionária dos luminosos transgressores que com a dinamite de suas invenções desestabilizam as estruturas do Poder. Esses que mereceram o exílio de Platão, que foram expulsos da Utopia do controle, da república da razão e vagam indolentes, insolentes, pelos becos, esquinas e travessas do sensível.

All Along The Watchtower é o Apocalipse místico dessa poesia-rock — poesia urbana, poesia trânsfuga, poesia pedestre. Uma profecia não do futuro, mas de múltiplos devires que fazem pulular em infinitas presenças virtuais do Desejo as revoluções dos páreas.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre ISAAC | POEMATRON

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Descubra mais sobre ISAAC | POEMATRON

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading