Quando a indústria percebeu que ganharia muito mais se tivesse um exército de artistas medianos fazendo o trabalho mecânico de realizar uma fórmula era muito mais lucrativo do que ter um Fred Mercury, com todas as suas idiossincrasias e instabilidades – nesse momento, a indústria percebeu que o artista autêntico era uma perda de tempo e money.
O primeiro episódio do CasinoQuebec – O Podcast
Música independente, arte e mercado. Quais as relações de amor e rivalidade que existem entre esses conceitos? Como isso afeta o trabalho de artistas como eu e meus parceiros ou como você mesmo ou alguém que você conhece? É isso o que eu e meus comparsas de banda tentamos descobrir há mais de meia década. Segue comigo para saber um pouco do que nós pensamos sobre isso.
Um trabalho marginal
O trabaho da música independente é um trabalho marginal. À margem da indústria fonográfica, usando de artimanhas e estratagemas, correndo riscos muito sérios e, como dizem no Maranhão, dando nossa cara à tapa, nós nos aventuramos nessa estrada porque acreditamos.
Acreditamos na nossa música, mas também na nossa força – sobretudo, acreditamos que não estaremos sós: acreditamos que encontraremos corações para se conectar aos nossos.
O trabalho da música independente é um trabalho marginal – à margem da indústria, mas competindo com ela. É como trabalho de gangster – fora da lei, mas dentro do mercado.
No primeiro episódio do CasinoQuebec – O Podcast, o novo projeto da Banda CasinoQuebec, eu, o Felipe Bittencourt e a Jaqueline Mesquita conversamos sobre esse assunto, contamos um pouco da nossa experiência, sobre as nossas soluções, processos, desafios.
O que é música independente?
A música independente não é bem um gênero. Não se refere especificamente à sonoridade ou ao estilo musical – apesar de que está muito mais intimamente relacionada ao rock, em especial a vertentes conhecidas como post punk.
Isso é muito natural, já que é dentro do movimento punk – para muito além de sua expressão musical – que surge a ideia do make yourself, o “faça você mesmo”, como uma ferramenta de emancipação – uma tática anárquica de rebeldia contra o sistema capitalista e sua lógica uniformizadora baseada no conceito de linha de montagem.
Individualidade? Autenticidade? Isso não é bom para o sistema. A individualidade só interessa ao sistema quando produzida em massa, nos termos de uma individualização, ou melhor, de uma catalogação.
Mas individualidade no sentido de expressão autônoma e emancipada, isso não interessa ao sistema, Isso é, afinal, a antítese do sistema. No sistema você é peça, não tem autonomia, não pode ter autonomia – a autonomia da peça é o colapso do sistema.
Por isso a tática punk da manufatura do seu próprio ser carrega em si um DNA revolucionário de anarquia, de rebeldia.
E por isso, quando, em meados para fim dos oitenta, as tecnologias de gravação se tornaram mais acessíveis (sim, o sistema oferece as ferramentas para o seu enfrentamento), muitos artistas abandonaram o sonho místico (e mal contato) dos contratos milionários com grandes gravadoras e passaram a gerir suas próprias produções e carreiras.
Isso começou no rock, mas não se restringe ao rock.
A Arte contra a linha de montagem
Isso tudo pode ter significado, para esses artistas, a possibilidade de fazer música na era industrial, sob os olhos e dentes da indústria fonográfica – grande Kraken – a sua própria música.
E os artistas das grandes gravadoras não faziam ou fazem isso? Os gênios podem ter feito. E aqui e acolá, tanto artistas quanto empresas tiveram que pagar o preço da originalidade. Mas, via de regra, aquilo que possui originalidade não é interessante – porque não pode ser replicado.
Você pode replicar Bruce Springsteen? Pode replicar Amy Winehouse? Pode juntar peças substituíveis e montar uma nova Elis? Uma nova Rita Lee? Não, você não pode. Artistas autênticos podem ser altamente valorizados – mas eles não podem ser enquadrados em um processo industrial de produção (que é, por definição, baseado na repetição, repetitiva repetição, o eterno retorno do mesmo).
Como artistas originais – legítimos espúrios – a repetição é sempre a repetição da diferença. É o eterno retorno do novo. O eterno retorno do outro. É sempre uma energia nova, uma creação, o milagre da Arte diante dos olhos e para dentro dos ouvidos e almas das pessoas.
Não é distração – é inspirador. Não é gerível – é potência pura. Sobretudo, é insubstituível.
Quando a indústria percebeu que ganharia muito mais se tivesse um exército de artistas medianos fazendo o trabalho mecânico de realizar uma fórmula era muito mais lucrativo do que ter um Fred Mercury, com todas as suas idiossincrasias e instabilidades – nesse momento, a indústria percebeu que o artista autêntico era uma perda de tempo e money.
Então, essa força criativa migrou – em grande parte – para as linhas de fuga da música independente. Toda arte é minoritária e, por ser marginal, na música independente a arte fecunda (mais).
CasinoQuebec – O Podcast
Este foi meio que o meu resumo expandido do que foi a gravação do nosso podcast. Clica nesse link para escolher a sua plataforma:
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