Uma menina me ensinou (isto não é sobre a canção de Renato Russo)

Li muito, por muitos anos. Filósofos, historiadores, poetas e romancistas. Também li idiotas e vigaristas. Li porque era preciso viver – e a vida é muito pouca para ser só uma. Li porque era preciso saber, e li porque era preciso escrever.

Escrevi muito, por muitos anos. Escrevi como quem percorre a si mesmo em busca de uma pergunta nova. Nunca escrevi para me compreender – embora a escrita me revele: sempre escrevi para me assombrar. Escrevi também porque era preciso viver – vivi da escrita, material e espiritualmente, o que basta para fazer de mim um homem privilegiado.

E nesses anos de jornada como leitor e escritor, sempre que me confrontava como leitor de meus próprios textos assomava-me a dúvida. Eu sempre tive uma resposta para as perguntas “o que é literatura” e “o que é poesia”. Essa resposta variou ao longo do tempo (nunca fui refém de nenhuma ideia), mas nunca foi um lugar vazio. Entretanto foi assim, de repente, como quem encontra uma chance de reinventar o amor que eu entendi do que a Literatura se trata.

Não é sobre o poema, nem sobre a história, não é nem mesmo sobre o estilo. Escrever é mostrar como se escreve, é mostrar o corpo escrevendo – escrever com sangue é compartilhar o ato de escrever, a escrita como vida, o acontecimento da escrita. Isso eu aprendi com uma menina, no instante em que fiz o pingente de um dos meus cordões deslizar suavemente no bico do seio dela e, sorrindo, ela me disse: eu sei que você vai escrever isso.

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