Aforismos

1

Não existe educação libertadora, é uma contradição de termos. O conhecimento pode ser libertador – a educação, não. O objetivo da educação é prover peças de reposição para o estado e para o mercado – “formar cidadãos e preparar para o trabalho”.

O conhecimento libertador é aquele que deseduca. Falar na possibilidade de uma educação libertadora é como nós, professores, conciliamos nosso paradoxo e acalmamos a ferida do nosso ego.

2

Para que uma sociedade se sustente, ela necessita de recursos. O recurso mais importante, aquele fundamental, sem o qual todos os demais perdem a função é este: pessoas. Pessoas são perecíveis, daí a necessidade constante de renovação de estoque.

A supervalorização que damos em nossa cultura a instituições como família e escola são mistificações ideológicas. O objetivo da família é fazer mais pessoas, o da escola, adestrá-las. Toda a pressão que as mulheres recebem desde crianças para se tornarem mães; a condenação moral (às vezes silenciosa, às vezes nem tanto) daqueles que não querem ter filhos faz parte do aparato ideológico da reprodução: precisamos pensar que é natural e necessário, quando não é nem uma coisa nem outra – trata-se de política e economia.

3

Já sabemos que a definição “o homem é o ser racional” é insustentável. Não apenas por que desde Freud não se pode deixar de considerar a imensa parte inconsciente que nos compõe, mas porque mesmo em nossa consciência somos estúpidos, brutais e tarados – leia um jornal, uma revista de fofocas, um romance de Tolstoi, veja o Big Brother Brasil, a irracionalidade humana estará lá, sendo esfregada em sua cara desavergonhadamente.

A definição como ser social, entretanto, parece querer se sustentar. Mas é. só outra tolice. Se fôssemos mesmo animais sociais, porque precisaríamos do Estado? Qualquer coisa que pode se sustentar naturalmente dispensa ser institucionalizada. As pessoas se casam porque sabem que o amor não dura; elas firmam contratos de sociedade porque a confiança não é suficiente.

4

Somos uma espécie ridicularmente débil – temos corpos fracos para animais do nosso tamanho, temos dentes fracos que não dão conta de carne crua e as nossas garras não passam de unhas quebradiças que mal servem para coçar.

Além disso, nascemos prematuras e passamos anos dependendo de cuidadores. Muito grandes, precisamos de muita energia, muita comida, e somos de péssima camuflagem. Não temos uma boa cobertura de pelos, nenhum recurso para nos fazer parecer mais ameaçadores, e nossas vozes são patéticas na natureza.

Por conta dessa fragilidade, a existência gregária e a invenção de tecnologias foram nossa única chance de sobrevivência. Mas a necessidade de viver em bando não nos torna “animais sociais” – somos as mesmas bestas simiescas famintas, desprotegidas e desconfiadas que zanzaram pelo planeta até chegar onde não havia árvores e só por isso foram forçadas a descer. Deve vir daí nosso fetiche pelo “superior” – um desejo ancestral agora incognoscível de voltar aos galhos das árvores.

Nossa tendência aparentemente sublime a olhar para o céu é. apenas o desejo reprimido de voltarmos a ser macacos.

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