Precisamos reavaliar periodicamente a utilidade das palavras. Nesse texto eu gostaria de fazer anotações mais ou menos genéricas sobre a palavra cultura, a partir de alguns fragmentos de Guattari. No final, espero ter esclarecido por que penso que a arte deve atuar contra a cultura e não como parte dela.

Um conceito reacionário
Em 1982, Felix Guattari participou de “uma densa viagem pelo Brasil” a convite de Suely Rolnik. Encontros, conversações, eclosões de pensamento, um substrato quente e fantasmático dessa viagem está fixado no livro Micropolíticas: Cartografias do Desejo, de Guattari e Rolnik. Tenho certeza que não é por acaso que a primeira discussão da obra é sobre isso que Guattari chamou de uma palavra-cilada:
O conceito de cultura é profundamente reacionário. (…) A cultura enquanto esfera autônoma só existe em nível dos mercados do poder. (…) o capital ocupa-se da sujeição econômica, e a cultura, da sujeição subjetiva. (p 22)
Onde a gente bota a cara? Nós, homens e mulheres cultos, que nos orgulhamos de nossa cultura, que nos empertigamos em nossas coleções de livros, filmes e discos, em nossa gramática escorreita, em nossos diplomas, em todas as nossas insígnias culturais, para mostrar o quanto somos superiores, ou, no mínimo, especiais. Somos confrontados com a afirmação de que a cultura é um conceito profundamente reacionário e um mecanismo de sujeição — que a cultura não existe para criar, mas para evitar a criação e não para libertar, mas para manter sob controle.
O que dizemos quando dizemos “cultura”
Para Guattari, há três núcleos semânticos a partir dos quais a palavra cultura funciona:
- Cultura-valor — neste núcleo, existem os que têm cultura e os que não a têm, isso cria uma hierarquização e consequentemente a legitimação das dominações política e econômica.
- Cultura-alma coletiva — neste núcleo, a cultura é entendida como um patrimônio geral e identitário de um grupo social qualquer (entram aí as culturas nacionais, locais, underground, tradicionais, gay etc.). Aqui não há mais o binômio ter/não ter cultura, pois cada grupo forçosamente será dono de uma cultura específica.
- Cultura-mercadoria — é a cultura de massa, todos os artefatos semióticos, aparelhos e pessoas envolvidas na produção, distribuição, normalização, consumo e outras operações no mercado da cultura pertencem a este núcleo.
Guattari aponta que esses três modos de se entender a cultura se sucederam na história, mas eles não se excluem. E que atualmente os três estão funcionando simultaneamente. Quando se fala em cultura, estamos de algum modo falando em um mecanismo de diferenciação social, em um sistema de isolamentos identitários e num regime de coisificação de tudo o que o ser humano produz e consome, inclusive a própria humanidade.
Destruir a cultura e explodir com ela
“Destruir a linguagem e explodir com ela” era uma linha programática da estética e da epistemologia de Torquato Neto, que já havia percebido que palavras são ciladas. Parafrasear sua diretriz parece ser uma boa maneira de introduzir a pergunta de Guattari:
Como abrir, até quebrar, essas antigas esferas culturais fechadas sobre si mesmas? Como produzir novos agenciamentos de singularização que trabalhem por uma sensibilidade estética, pela mudança cotidiana e, ao mesmo tempo, pelas transformações sociais em nível dos grandes conjuntos econômicos e sociais? (p 30)
Um entendimento superficial do conceito de “lugar de fala” por muitos militantes de esquerda têm transformado o conceito num dispositivo de autorreprodução do mesmo. Mas Guattari propõe romper com nossos lugares no interior da monstruosa máquina de produção de indivíduos normalizados em busca maneiras singulares de produção de subjetividade — uma espécie de invenção de nós mesmos — que não pertença a nenhum dos modelos culturais pré-formatados.

Então, a arte é uma contracultura
Exatamente isso — essa sensibilidade estética a que se refere Guattari — é o que entendo ser a arte.
Máquina de guerra, a arte rompe o pacto da normalidade, o pacto da mediocridade: ela viola os acordos territoriais das identidades fixas e eclode como força do caos em meio ao cosmo. Transgressão que se recusa a tornar-se lei — proposta que não se molda em resposta, não se posiciona como projeto, sempre uma falta e sempre um transbordamento, sempre um volver-se sobre si mesma e um deslizar de seu próprio sentido em outro. A arte é sempre uma linha de fuga — estar-se onde não se pensa, pensar-se onde não se está.
Como todo ponto tem um nó, vamos retornar ao primeiro parágrafo desse texto. Terá ficado claro “por quê eu penso que a arte deve atuar contra a cultura e não como parte dela”?
REFERÊNCIA
GUATTARI, Felix & ROLNIK, Suely. Micropolíticas: cartografias do desejo (7° Edição). Petrópolis: Vozes, 2005.
Deixe uma resposta