Venho de uma família de formação protestante. Meus avós maternos eram da Igreja Cristã Evangélica, e congregar nessa comunidade fez parte da criação dos seus seis filhos, incluindo minha mãe.
Aquela igreja tinha uma escola, chamada Escola Betel, e foi nela que eu fiz o jardim de infância. Lembro também de, lá pelos seis, sete anos, frequentar a chatíssima Escola Bíblica Dominical – lembro de como era frustrante ser informado de que iríamos à igreja no domingo de manhã.
Mas eu resolvi esse problema encontrando uma outra igreja, pertinho de casa, tão perto que eu podia ir sozinho. Lá, havia uma professora de crianças que tinha um livro com figuras.
Aquela mulher sabia como contar uma história. Então eu consegui autorização para trocar os discursos longos e entediantes da igreja dos meus avós por um círculo de crianças, numa igrejinha sem reboco, onde uma mulher nos divertia com histórias incríveis de meninos matando gigantes, tempestades marítimas e peixes monstruosos, guerreiros de cabelos compridos e força sobre-humana…
E lá eles nos deixavam cantar. Eu podia dizer ao pastor, antes dos cultos, que eu queria cantar, ou recitar um versículo e eles cediam o microfone a uma criança. A professora organizava peças de teatro e cultos infantis, em que nós podíamos fazer de tudo, inclusive pregar. Ela fazia pequenos saraus de poesia e até uma sessão de cinema…
Aliás, foi nesse dia que eu deixei aquela comunidade. Nós, crianças da igreja, devíamos ajudar a organizar a sessão de cinema, e minha avó me deu um quilo de milho de pipoca para contribuir. No dia do filme, nós trabalhávamos, servindo as crianças convidadas. Eu, fiz uma rodada, voltei para pegar mais pipoca e servir as outras crianças – eu estava empolgado com a ideia de servir, e eu nunca fui dessas crianças que adora comer besteira. Mas um rapaz achou que eu estava pegando a pipoca pra mim, eu o confrontei (sete anos de idade e confrontando um adulto, eu nunca fui de me colocar no meu lugar). Voltei para casa e disse que não pisaria mais ali.
Voltei a frequentar uma igreja apenas seis anos depois, quando conheci um professor de história muito bom (também um ótimo contador), e ele era pastor batista, e eu me tornei amigo dele, e eu me converti, e foi para ajudar aquela igreja que eu decidi que aprenderia a tocar um instrumento… E isso é uma outra história.
O caso é que, revisitando as minhas memórias, eu percebo que desde muito cedo eu fui atraído pela arte. Era uma história bem contada, desenhos bonitos num livro, belos textos para ler, memorizar e declamar.
Uma criança pobre, numa cidade pequena de um estado paupérrimo (eu morava em Codó – MA), nos desastrosos anos 1980. Nós mal tínhamos acesso à televisão. Nada de teatro. Nada de espetáculos musicais. Nada de passeios. Museus. Viagens. Eu tive sorte, por ser de uma família de professores e haver em casa muitos livros – e muitos diálogos inteligentes – e muito incentivo para que eu estudar.
Mas as possibilidades concretas de uma formação cultural sofisticada eram mínimas – assim, as iniciativas daquela professorinha de crianças de uma congregação Quadrangular, com um pastor que só tinha um paletó e andava de monarcão, e cujas paredes, mais de 10 anos depois ainda estavam sem reboco, foram fundamentais para o meu crescimento espiritual (não digo espiritual no sentido religioso, mas de intelecto e sensibilidade).
E foi ali também que eu descobri o meu amor pelo palco. Subir aquele púlpito cantar, dizer poesia, um salmo, uma frase do Sermão da Montanha, interpretar um coelhinho numa peça boba, todas essas coisas me deram, na tenra idade, uma experiência formadora – prenunciaram o artista que eu ainda não sabia que queria me tornar.
E meio que me lançaram uma maldição – eu sou um prisioneiro do palco. Eu preciso sentir a vibração daquele chão, o eco daqueles sons, a visão ao mesmo tempo excitante e assustadora do público, as luzes encandeiando a minha retina já tão fatigada, a formação de um corpo-máquina, que e transcende e me completa.
O palco – a materialização da poesia, da fantasia: o palco é o feitiço feito real.
O palco pode ser a rua, pode ser a praça – pode ser móvel, pode ser múltiplo. O palco é uma invenção da potência do artista – ele não é feito de metal, nem de madeira, é feito de voz, de corpo, de olhares que se cruzam, que se cravam e que se amam. O palco é um acontecimento. Eu sinto falta do palco porque o palco é um lugar que faz a vida – inútil, inválida, sem sentido – valer a pena. O palco realiza a potência.
A saudade do palco me levou a dias distantes, dias nus. As memórias de um pequeno rebelde se tornaram o consolo do velho artista no exílio. São tenebrosos os dias que me separam do palco, muito mais do que aqueles me separam de Deus,
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