Os dias, as noites, os pulsos da música. O tempo, como uma lixa. A filosofia murmurante das águas e dos redemoinhos.
A lagarta, a goteira, o gargarejar de uma privada no prédio vazio – e imenso.
Reminiscência e devaneio. Loucura e aprendizado. Viajar e escrever – uma coisa para a outra, uma coisa contra a outra: contar histórias que se viveu, contar o que se vislumbrou em transe.
Poesia é rasgar a pele da mentira para arrancar realidade do sonho: quem sabe a diferença entre a memória e o oráculo?
Percorrer o tempo em sentidos opostos: a rua de mão dupla é Kerouac e é Rimbaud.
O homem e o gato num cenário de nostalgia – os fragmentos iluminados da loucura.
Sangue de Antoine Artaud, os punhos cerrados de Andre Breton, meu passeio cego pela Rive Gauche. Deuses americanos, autofalantes e canários azuis – olho para o oceano na borda dobrada do século e diviso golpes de estado.
Onde há uma casa há um campo de concentração.
O corpo é um suporte: nós somos uma coisa muito menos confiável.
Quem ama conheceu a morte – mas apenas os mortos conhecerão o amor.
Sento-me perto da calçada, do lado de dentro do muro, ouço os gritos das crianças, os gritos de suas mães que vêm das casas contíguas, os gritos, as calçadas, as casas que se conectam por fissuras nas paredes.
No céu as cores mudam imperceptivelmente, mas se você for atento, pode enxergar nuances. Existe um brilho de pele de rã a certa altura do entardecer – um brilho de olhos de rã: e as estrelas são moscas que o sapo cospe.
Poesia! Jovens mulheres e seus pequenos seios, barrigas enxutas, vulvas molhadas, danças de rua, danças de salão, os últimos suspiros das tribos antropófagas. Eu e os meus olhos doloridos ouvimos os gritos das casas entre crianças contíguas e a tristeza feminina de suas mães – bolhas de manteiga que estalam nas frigideiras.
Caxias, Maio de 2018
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