Texto-catarro (como diria Edwar)

A imagem em destaque é do artista plástico Felipe Gobbi.

Essa coisa de “alta literatura”, de Poesia (com maiúscula) é uma barca furada que babacas eruditos inventaram para compensar com elitismo a evidente falta de “aproach” com a estética-acontecimento.

Poesia é expressão – de exprimir, espremer, o real na fibra de sua realidade: o real como acontecimento concreto, como acontecimento fantasma, como acontecimento cabal ou como acontecimento sonhado.

Mas sempre o real acontecido na fina leveza e ainda assim cruenta densidade da carne – humana carne.

Poesia tem gênero. Poesia tem cor. Poesia tem idade. Poesia tem classe social. Poesia tem dor no nervo ciático. Poesia tem hérnia de disco. Poesia tem glaucoma. Poesia tem caganeira. Poesia tem AIDS. Poesia tem religião. Poesia tem ceticismo. Poesia tem câncer. Poesia tem pai, mãe, filho, filha, esposo, esposa, amantes e amantes, amigos, inimigos e ressaca.

Poesia sofre golpe de estado.

A única coisa que poesia não tem é neutralidade. Poesia não nasce da nuvem. Não nasce de Deus. Não nasce num espaço higienizado de ideias puras. Tem história. Acontece na história. Interfere na história.

E é múltipla. Não se escreve com maiúscula, porque não é única, e não é própria. Substantivo próprio? Não! Poesia é substantivo comum – embora seja matéria rara (como o ouro, a platina e o ródio).

Você encontra estilhaços de poesia no lixo; nas camas de motel; nos esconderijos de ladrões; nos prostíbulos; nos banheiros das igrejas enquanto os pastores mentem e os fiéis se drogam. Você encontra estilhaços de poesia na grama das praças; nas brincadeiras das crianças; no andar ridículo dos patos, no vôo magnífico dos urubus; nas ruínas abandonadas das fábricas.

Que diabo é “alta literatura”? Que diabo é “Poesia” (com maiúscula)? Cadê o Manual de Crítica Literária de Adão? Poesia nem se faz nos livros. Nem para os livros. E nem aos livros pertence. Ela é o leite bom da vaca profana jogado na minha cara e o leite ruim jogado na cara dos caretas.

Gal Costa – Vaca Profana (de Caetano Veloso)

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