Eu soube que deveria recorrer à poesia para sobreviver numa manhã nublada, dentro de uma agência bancária. Eu tinha uns 18 anos; um colega de sala de aula recentemente havia sido conquistado por uma vaga como bancário. Enquanto eu esperava para ser atendido, olhei-os passar em suas roupas sociais em dessintonia com seu corpo e com aquele sorriso plasmado em agonia de quem ganhou meias no Natal – e fui assaltado por um violenta sensação de absurdo.
O tempo é um recurso finito e não renovável e lá estavam duas manhãs (a minha e a dele) consumidas entre máquinas, unidades monetárias e pessoas de semblante cansado, engrenagens de um sistema que não nos convence, apenas nos esmaga. E em algum ponto indiferente da temporalidade eu e ele estaríamos mortos, ninguém se lembraria de nós – nem mesmo os vermes que primeiro roeram as carnes frias de nossas misérias – e aquela (s) manhã ($) que deixamos esvair na agência bancária debalde teria vindo e debalde teria ido – um presente que ganhamos e nem soubemos por quê.
Passeei por séculos no infinito da minha mente e procurei alguma coisa que pudesse dar sentido a esse amontoado de fúria, som e cortisol a que chamamos vida e não encontrei nada além de infinitas ficções. Dentre todas, elegi a poesia como a mais suave e honesta pois, diferente da política, da ciência, do dinheiro, da religião, da moral, do niilismo, que são ficções mas se arvoram de ser verdades (sendo a religião, de todas, a mais venenosa e autoritária) = a poesia nada quer ser além do que é: pura invenção.
Se existia alguma coisa que merecesse o esforço de viver para nada, esta era a poesia em sua altaneira e indócil humildade. Foi o que escolhi fazer. E o meu amigo da epifania? Frequenta a igreja aos domingos, onde toca contrabaixo,, pescando notas da guitarra do colega 17 anos mais jovem; tem casa, carro, esposa, uma filha, pensa em se aposentar quando crescer e esteve do lado dos fascistas na última eleição.
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