Ninguendades

Ninguendades

(Renato Meneses)

penso nos homens só de pele e ossos

no instante da mesa devorando de nós os sobejos

nas mulheres de vento e olhar de vacas tristes,

metáforas de parir adventos de gentes:

paisagens de párias na solidão das ruas

a vagar no silêncio das luas.

são desvalidos da mesma matriz equivalente

engenhos da exploração equidistante

dínamos da dor e da ilusão presente

mas quando tudo isso germinar consciência 

da favela inteira um ritmo de resistência

descerá com todo gás uma quimera

com olho grande vibrante de pantera

I

Poema de Renato Meneses musicado por mim durante o isolamento compulsório na pandemia de 2020, “Ninguendades” é ao mesmo tempo um “spleen de Caxias” e um vislumbre de revolução. 

Crítica social aguda e invenção de linguagem original, o poema retrata a desigualdade não apenas como denúncia mas também dor compartilhada e senso de responsabilidade.

A imagem que fecha o poema é o prenúncio do inorgânico – o não-humano que supera o humano, misto de super-homem nietzscheano com devir-animal de Deleuze, a superação do humanismo superficial europeu e adesão a um humanismo radical descolonizado.

II

Para essa música, desrespeitei as fórmulas padrão da música pop, me aproximando de um som que poderia ser chamado de “experimental”.

Parte A que inicia com um recitativo e se conclui numa melodia curta e resolutiva. Parte B construída sobre um único acorde dominante, em torno do qual se desenrola um movimento modal tenso e obscuro que pede resolução em acorde menor, mas que retorna ao tema melódico da Parte A, retardando em dois acordes o descanso no acorde menor.

Em vez de um refrão, há como que um segundo capítulo, em que novamente exploro a tensão sobre um acorde dominante, mas desta vez com uma sonoridade luminosa, aproveitando a palavra “mas” que abre o verso para sugerir a sensação de contraste. É a promessa de uma nova possibilidade de resolução harmônica, não mais em acorde menor, e sim em seu relativo maior. No entanto, essa expectativa é sempre quebrada.

A segunda parte desse pseudo-refrão é uma conversão um tanto quanto orquestral que rompe o fluxo normal da canção e acompanha sílaba a sílaba o poema, com um desfecho modal que tinge de uma sonoridade épica o aparecimento repentino da imagem da pantera.

III

O solo de guitarra é uma composição autônoma dentro da composição principal.

Sem seguir nenhuma das células harmônicas das partes da canção, ele percorre uma série de modulações simétricas, recusando a atração imediata entre acorde dominante e acorde alvo, criando uma sensação onírica, como se dissesse que as revoluções são gestadas nos sonhos.

O uso de um efeito de modulação reforça essa sugestão de dobra do real.

IV

A música foi gravada em um dia, no WM Estúdio, em Pedreiras. Participaram da gravação:

Isaac: Violão, guitarra e voz

Renato Meneses: voz

Felipe Bittencourt: baixo

Roberto: Bateria

Wellysson: Técnica de gravação

Raquel Freitas: Foto de Capa

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