Caderno da Guanabara

Este é um ciclo de poemas, maioria de pretensos haicais, escritos em um pequeno caderno de carreguei comigo durante aproximadamente 80 dias, entre dezembro de 2024 e março de 2025 pelas curvas das BR 343 e 316, no qual trabalhei mais intensamente entre os meses de janeiro e fevereiro de 2025.

Calhou que, num momento em que me vi especialmente interessado em entender o espírito da forma haicai, passei por intensas transformações em minha vida que me exigiram a manufatura de metáforas, bem como uma forma qualquer de condensar em mim o tempo e que me livrasse da condenação de Sísifo.

Bem ou mal realizados, estes versos são de algum modo o resultado e o substrato dessa experiência (experiência de vida, não experimento laboral). Dizer isso é mais do que se pode esperar de mim, um poeta ficcionista, talvez sincero demais, talvez demasiadamentiroso.


1

o
vazio
vaza

2

libélula seca
sobre uma fotografia
poeira no ar

3

os ipês florescem
ano após ano após ano
quando há ipês

4

uma folha morta
apodrecendo na terra
todas as memórias

5

belas perdidas
na periferia
de pasárgada

6

hai
cai
balão

7

gata ensolarada
passeia no cio da tarde:
olhar e perder

8

dilui-se o poema
no café que derramei
por lágrima

9

e todos os meus átomos
se alinham
quando ela me abraça

10

vento no peito
chuva no litoral:
murmúrios cinzentos

11

vento & arrepio
nuvens cinzas no horizonte
saudade e trovão

12

gueixa do cerrado
de cabelos retorcidos
olhos de katana

13

língua de serpente
olhos de raposa
o invejoso á mesa

14

moça no colo
ritmo de tambor
tan-tan bum-bum

15

arraste para lado
— legenda para a tua calcinha

16

bloquinho na estante
marcha-rancho em tom menor
abortados carnavais

17

das ruínas do quartel
mirou o mundo em ruínas
— você é minha ruína mais bonita

18

esse ofício, meu bem,
de guardar frases & esconder beijos
sob as dobras do meu blues

19

isso de morrer
mentira
que poeta não sabe contar

20

tornarmo-nos mulher
gestarmos a vida, não no ventre
— nas horas

21

paisagem de concreto
bem-te-vi caça na sarjeta
o amor e outras onomatopeias

22

dance sobre a minha barba
cacho de begônias na mão
dance como se o amor fosse mortal

dance, palmeira ao vento
asas baias sobre as torres
dance como este fosse o suspiro final

23

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