Comentário ligeiro sobre o uso da linguagem das patologias na descrição de sentimentos

A linguagem das patologias incansavelmente aplicada aos sentimentos retira de nós a perspectiva dos sentimentos e transforma todos os afetos em doença.
Estar apaixonado, estar com saudade, estar com medo, estar apreensivo, estar arrependido. Coração acelerado, vontade de chorar, tremores nas mãos por pensar ou ver algo ou alguém.
Todas a linguagem e sensações que descrevam afetos perfeitamente saudáveis, coisas que se sentem vez ou outra, por motivo ou outro, em certos momentos ou períods da vida. Tudo reduzido a algum tipo de transtorno ou crise.
A própria palavra ansiedade deixou de ser, na linguagem, uma sensação ligado a um objeto ou contexto e se tornou entidade autônoma. Não se diz “estou ansioso por isso”, “ansioso por aquilo”. Diz-se apenas “ansioso”. E essa palavra não descreve um afeto legítimo, mas um déficit de saúde.
Você não se afasta de alguém, desintoxica-se. Você não se apaixona, você se torna dependente. Você não sente saudades, tem abstinência. A linguagem patológica transforma em enfermidade os afetos e tira de nós a plenitude da experiência sentimental — inclusive a poesia.
Se alguém hoje ouvir a canção dos Mutantes:
Ando meio desligado
Eu nem sinto meus pés no chão
Olho e não vejo nada
Eu só penso se você me quer.
Com certeza, não verá nada aí além de dissociação e obsessão.
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