Cassino fantasma — a presenca da ausencia no espaco urbano de Caxias (parte 1)

Para se pensar o uso e o discurso sobre o terreno onde existia o Cassino Caxiense, em Caxias — MA

Atualmente, se você subir pela Rua Aarão Reis, no Centro de Caxias, a certa altura de sua caminhada, olhando para o lado esquerdo, você vai se deparar com um pequeno descampado. Uma área ampla, onde jazem pedras, restos de concreto, de antigo revestimento de piso e mato. Ali, gatos e cães de rua improvisam bailes enquanto a cidade fantasmagórica passa por eles indiferente.

Se você passasse pelo mesmo lugar apenas dois anos atrás, ainda veria em pé a ruína decrépita do antigo clube social Cassino Caxiense. O cheiro era de abandono e o tipo de construção denunciava a idade, com aquelas arcadas largas e colunas contando de uma velha imponência que já não se podia sustentar.

Se voltasse ainda mais no tempo, lá para os anos 1990, poderia ver bailes de sábado em que gente decente de diferentes classes sociais ia dançar ao som da discotecagem de algum DJ, as batidas mais em alta no momento ou as canções inesquecíveis de outrora num salão que, na época, já era tão demodé quanto a palavra demodé no momento em que escrevo.

E se você pudesse penetrar ainda mais no passado, veria o Cassino Caxiense se cobrir de pompa e exclusividade. Lá em seus começos, na primeira metade do século XX, ele nasceu como um clube de elite onde as “boas famílias” da cidade podiam socializar entre si, sem a presença inócua, porém incômoda, do povão — ou, para usar uma expressão mais “de época”, do populacho.

Durante as duas últimas décadas, algumas coisas levaram o clube a declínio completo. A geração que o havia fundado saiu de cena e seus herdeiros tinham outros interesses. Sem gestão, o edifício começou a se deteriorar. Ao mesmo tempo, a vida noturna da cidade transferiu-se paulatinamente do Centro para a Avenida Alexandre Costa, que oferecia espaços mais modernos, com estética e usabilidade mais condizentes com o gosto do XXI. Além disso, a expansão da classe média durante os governos Lula e Dilma tornou sem sentido a existência de um clube exclusivista de elite quando se percebeu que aquela elite, afinal, era apenas classe média

Entregue às intempéries, o edifício foi se desgastando. Mas paralelamente ao seu desgaste não deixou de haver vozes que se levantavam cobrando ações de revitalização, que atribuíam ao Cassino Caxiense um valor memorial, patrimonial, que reivindicavam sua conservação. Alguns, com um discurso saudosista, em busca de reviver lembranças e celebrar um estado de coisas que não existe mais — Velha Guarda Caxiense chegou mesmo a realizar festas no salão do Cassino (apesar da fraqueza das estruturas) em que simulavam antigos bailes. Outros, porém, defendiam a manutenção do espaço e de sua fachada na paisagem urbana, mas com a possibilidade de usos outros, desde que voltados para a cultura.

Em 2023, houve uma audiência pública com representantes da Prefeitura Municipal, do Ministério Público, da Academia Caxiense de Letras, em cujo auditório se fez e o evento, e de associados do Cassino Caxiense. Na ocasião, a Prefeitura Municipal foi autorizada e cuidar do espaço e se comprometeu a revitalizá-lo. Ambiguidades e malícias, não houve mentira nem verdade: alguns depois, o prédio foi demolido pela prefeitura e o entulho removido. Ali, segundo se disse, seria construído o anexo do camelódromo (cuja unidade principal ainda não havia sido entregue). Não se pode dizer que a prefeitura não cuidou e que, pelo menos, não propôs uma revitalização.

Voltemos a você, subindo a Rua Aarão Reis, olhando à sua esquerda, um terreno com restos de concreto, mato e bailes animados de cães de rua. Vez por outra, esse espaço é usado como estacionamento. Mas o que você vê ali não é um espaço “vazio”, desocupado — o que você vê, de fato, é uma ferida na pele da cidade. Aquele espaço está repleto de fantasmas, de narrativas, de contradições e de disputas. Há ali a presença de uma ausência, e neste exato momento existe um esforço para se atribuir sentido ao que esta ausência é capaz de dizer.

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