Comentário sobre o sentimento do tempo

O tempo já foi profundo: entre tique e taque, entre 1 e 2, havia o infinito das frações e dízimas. Tempo de música, capaz de fazer uma nota (a mais ínfima) durar a vida inteira no tímpano. Um tempo habitável e habitado.
O tempo se fez rarefeito, irrespirável, quase vazio. Um tempo em que pouca vida se sustenta: tempo de tardígrados. Incontáveis tiques e taques sem nenhuma intensidade além da asfixia.
Nesse tempo rarefeito, as palavras ressecam e se empobrecem, elas se amordaçam. Existem silêncios sem cumplicidade: desconfiados silenciosamentos. Apenas a sequência inexorável dos segundos se acumulando para nada.
Mas resiste também um tempo outro. Tempo latente, como semente que dormiu no solo esperando a estação: tempo de síncope. Esse tempo parece silencioso, mas ele canta com a sutileza da respiração do orvalho. Um tempo intenso como viração — nuvem que nasce do suspiro da terra.
Esse tempo guarda em si todos os nomes da história e ele trama sonhos com a irresponsabilidade de um poeta — tempo que vibra em direção a… Ele não precisa de direção; esse tempo não é rio, é tempo-mar.
— Caderno da Planície.
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