“Artista não tem que militar”, diz o cúmplice da injustiça.

Existem artistas que tocam, cantam e fazem poesia para santos, anjos e para o próprio Deus.

Essas pessoas — Deus, anjos e santos — não moram na Terra. Elas não comem, não passam frio, nem sede, elas não adoecem de câncer depois de serem envenenadas por alimentos industrializados e vegetais intoxicados. São pessoas que não levam tiro de polícias terroristas e aterrorizadas, nem são espancadas, violentadas, humilhadas ou assassinadas por serem pretas, por serem loucas, por se vestirem diferente e viverem diferente.

Lá no céu, rodeadas de luz, de graça e de paz, Deus, os anjos e os santos não ficam desabrigados quando chove, não são vitimados por descaso médico, não perdem seus países quando uma potência militar os invade e expulsa. Não perdem braços, pernas, olhos, dentes e filhos quando explodem uma bomba no seu bairro. Eles estão completamente além de todos, absolutamente todos, os problemas sociais, políticos, econômicos e ambientais do planeta. Até mesmo quando um escritor blasfemo — este não o caso — fala contra Deus, os anjos e os santos, nem mesmo isso altera a condição de plenitude em que eles sempiternamemte se encontram em sua morada celestial.

Eu, entretanto, sou um artista que escreve, toca e canta para pessoas de carne e sangue. Por isso meu texto, minha música e minha voz são texto, música e voz de carne e sangue. Eu moro num país em que gente passa fome — e se hoje eu não passo fome, amanhã posso vir a passar, porque sou um homem pobre e meu corpo frágil pode ser arrastado pela violência torrencial das condições sociais.

Existo em um país onde as pessoas sofrem os efeitos da pobreza, da exploração e da má distribuição de renda. Moro num país em que há pessoas que não sabem o que é serem chamadas de gente, mesmo depois de tantos caminhos trilhar. Por isso, porque não canto para pessoas sem corpo que moram no céu, porque faço arte para gente, para meus vizinhos, para os que cruzam comido na calçada, é que meu texto, minha música e minha voz nunca serão isentos, nem neutros nem abstinentes.

E para aquelas pessoas que acham que “artista não tem que militar”, que se ofendem quando a arte corta fino na nervura do real, eu dou um conselho: vire santo, vire anjo, vá pro céu. A arte lá é neutra, pura e espiritual. Enquanto você for parte da mesma podridão que eu, a minha arte — que nasce de tudo que goza e dói — vai gozar e dor em você também.

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