Da fidelidade às palavras

Sobre um comentário que alguém fez sobre cantar em “nossa língua”.

A língua portuguesa é o meu instrumento mais frequente de expressão verbal. A língua que domino; aquela na qual eu sou um virtuose. Eu a amo, não pelo que ela é, mas por tudo que sou capaz de fazer com ela: amo-a como um espadachin à sua lâmina.

Não guardo por ela qualquer sentimento de pertencimento: minha pátria não é a língua portuguesa.

Se sentimento algum existe, é o de posse — pois ela me pertence, não o contrário. Pertence-me a língua portuguesa como uma amante submissa a qual se nomeia com palavra depravada — se outros amantes ela domina, isso não me interessa.

Quando me convém, manejo outros idiomas — sem a mesma proficiência, mas com idêntico despudor. Não devo fidelidade nenhuma a um idioma que não inventei. Todas as palavras me pertencem.

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