Poema

Não precisamos de pátria, meu bem,
tudo o que precisamos é um lar.
E lar é uma canção
que carregamos no peito.
Milagre de lar é parede que não prende,
refeição que se tempera a risos,
sono que se dorme junto — e em paz.
Não precisamos de família, meu bem,
nós que já temos o amor.
E amor é voz
a correr o corredor.
Milagre de amor é abraço que não sufoca,
é bicho bagunçando a casa,
ateliê de carinho pra ocupar tardes e domingos.
Não precisamos de pastor, meu bem,
nós que conhecemos Deus.
E Deus é o silêncio
que solfeja nos canteiros.
Milagre de Deus é fé que não condena,
leitura de poemas antes de fazer amor
– querer os vagabundos e desconfiar dos reis.
Bêbada, noite passada,
uma mulher andava só num trecho da estadual.
Perto da curva, na pista contra-mão.
Quem lhe pariu foi pátria, família a abandonou
– na alma carregava a marca do julgamento dos diáconos.
Enquanto em outro lugar
você disse que me amava,
me beijou entre bocejos
e eu dormi tranquilo com a tua coxa em minha mão.
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