Nesse dia dos mortos, um pequeno escrito sobre a morte como potência.

Escrever não é uma forma de evitar a morte: tanto melhor se escreve quanto mais se sabe morrer.
Hemingway, Marc Bloch, Antônio Cícero. Esse tipo de gente que já nasceu sabendo morrer. São eles os que entendem e se apropriam da vida com mais paixão e lirismo. E é por isso que puderam fazer da vida e da morte — escrito.
Nada de imortalidade, nada de permanência. Saber morrer é a grande virtude, a sacada de João do Santo Cristo e do ladrão na cruz. Deleuze aos setenta anos roubando o tubo da morte, surfando em pleno ar, último mergulho numa calçada de Paris
Escrever é saber morrer, mas não essa morte assombrada e reprimida que os pastores nos ensinam. Morte culpada: salário do pecado. Morte como punição, separação e trevas. Escrever é quebrar o ferrolho do inferno para libertar a morte como arte. A morte como a diluição do organismo no inorgânico — pedra, água, vento e eletricidade.
Morte como alegria, encontro nupcial com o cosmo que se arreganha.
Como viverá bem aquele que não sabe morrer? Quem tem força para dizer SIM à vida, se não pode dizer um grande e alegre sim à dama de vestido misterioso que lhe sorri em algum lugar adiante?
Pega um fósforo, acende o teu cigarro. O beijo, brother, também é a morte do escarro. Uma garota em botas de couro, uma velha pensando nos amigos que já não tem. Uma canção de John Lennon vinda do outro lado da rua — ou do oceano.
Preciso escrever muito e preciso muito escrever. Preciso viver, e muito, porque ainda não aprendi a morrer tão bem assim
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