Fricções

Um pequeno texto sobre a fluvialidade e a volúpia das palavras.

Mot, em Francês, significa palavra. Em Português, mote é uma palavra que indica outras palavras: aquela que, numa trova, dá motivo aos versos. Motivo é uma palavra usada como sinônimo de causa, razão e até de justificativa. Na música, um motivo tem o mesmo sentido que o mote na trova. Possui a mesma raiz etimológica de motion (movimento, em Inglês) e motor (aquilo que provoca o movimento, em Português).

Como se vê, há rio subterrâneo de sentidos que ligam, na língua, a língua ao pé, o canto ao vôo – o falar ao andar, o escrever ao viajar. Palavrear é fazer explodir o movimento: seja a frase de efeito de um Deus (haja luz!) ou uma explosão cósmica primordial estilhaçando adagas de luz pela eternidade — vêm da palavra/movimento os começos de todas as coisas.

As palavras fazem sexo. Tocam-se, mordem-se, penetram-se, chupam-se, marcam-se e seguem cada uma o seu caminho: as palavras carregam memórias de encontros com outras palavras, do conhecimento que comunicaram umas às outras e dos arranhões que se fizeram quando se friccionaram em êxtase — e silêncio.

Idiomas inteiros se tocam em promiscuidade simbólica e saturnais orgiásticas de signos.

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