Comentário sobre o novo livro de Socorro Borges, “Ventos que sopram aquelas noites”.

No dia 31 de outubro de 2024, ocorreu o lançamento de “Os ventos que sopram aquelas noites”, da poeta, historiadora e educadora Socorro Borges.
Vagalume num momento de perigo, o livro é uma coleção de poemas curtos, produzidos no limbo temporal da pandemia, em meio á onipresença da morte e da perda – de pessoas, de biodiversidade e da própria democracia.
Não apenas escrito “por mulher”, o livro se afirma enquanto escrito “de mulher”. Livro que exclama uma condição humana, uma posição de sujeito e os efeitos que essa posição produzem no corpo. Não como um manifesto feminista, mas como a uma expressão lírica e linguística apenas possível por um corpo escrevente de mulher.
A poesia de Socorro Borges nessa coletânea adere ao projeto estético semi-formalista do/da ‘poetrix”. Trata-se de uma proposta de escrita minimalista claramente inspirada no haicai japonês, porém menos rigorosa.
Como o haicai, o poetrix deve ter três versos e neles condensar toda uma percepção, à maneira de uma fotografia instantânea. Abre mão, entretanto, da métrica e da escansão clássica do haicai.
Mas, principalmente, o poetrix se diferencia do haicai pela sua intensa subjetividade. O haicai lança-se para fora do humano em seu alumbramento com as coisas ínfimas ou infinitas da natureza, dos ciclos cósmicos e da consciência de espécie. O poetrix, por sua vez, é profundamente subjetivo, pois é sempre a percepção e o afeto que se manifestam altamente condensados em sua linguagem, que é econômica, porém indisciplinada.
Não obstante, tal transbordamento de afetos em linguagem faz com que esse mesmo sujeito se desorganize – o corpo orgânico faz acoplamentos com o cosmo inorgânico. Daí a constante abertura do corpo à pedra, à folha, aos astros – ao vento.
O livro pode ser lido também sob a clave de um “devir-criança”. Nele, a poeta reaprende a falar com sua filha de nove anos, à época da escrita dos textos. A capa, a epígrafe e ilustrações foram trabalhos da menina, o que faz do livro, paradoxalmente à subjetividade de sua dicção, um exercício de diluição do eu num outro – numa outra. O encontro do devir-mulher com o devir-criança – a mulher que se desmancha com aquela que ainda não se fez.
A imagem central do livro é, sem dúvida, a da folha, a folha caída, a folha que seca. Essa imagem, diante da projeção ameaçadora da sombra da tragédia, é a negação do desespero. A morte desaparece frente ao cosmo – a folha seca aduba a terra, germina em trigo e pão, é leveza, alegria e dança.
“Ventos que sopram aquelas noites” é tudo que um trabalho de poesia deve ser: artesania da palavra praticada nas entranhas da vida.
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