Escrito por ocasião da morte do jornalista, amigo e confrade, Jotônio Viana, que editava a coluna “Caxias em off”

Vou contar a história do meu primeiro encontro com Jotônio Viana. Ele não se deu num ambiente físico, mas no espaço da escrita.
Ingressei no curso de História do CESC/UEMA em 2004, e por ocasião das eleições para Diretor de Centro, em 2006, tomei o partido da oposição. Escrevi panfletos, dirigi uma peça, me envolvi na campanha. Conseguimos fazer o nome mais votado da lista tríplice. Porém, os embates no interior da Universidade refletiam disputas políticas mais amplas (notadamente a luta contra a agonizante, porém resistente, oligarquia Sarney), e a escolha da reitoria (sarneysta) foi pelo nome mais conveniente — o que já era diretor.
No dia seguinte, as paredes do centro amanheceram incrustadas de lambes com um panfleto virulento que escrevi contra o diretor em nome do movimento estudantil. Linguagem dura, cruel, rebuscada e ofensiva. Era um escarro, um desabafo — as metáforas de decrepitude e purulência abundavam, um tom pós-apocalíptico, profano dominava. Se eu já tivesse lido Lautréamont, não teria soado tão parodístico.
Alguém arrancou uma cópia da peça e levou para o Jotônio. No dia seguinte, ele dedicou dois drops de sua coluna para, em pouquíssimas linhas, com uma elegância irritante, neutralizar toda a minha retórica. Explicou que apesar do fraseado, o texto não apresentava argumentos, a não ser um, nas últimas linhas, que ele transcreveu, num sinal de rara honestidade.
Quando li a coluna, fiquei ao mesmo tempo de ego ferido e de intelecto admirado. Queria revanche, mas não conseguiria dizer por quê. Num mesmo lance, tive que engolir um sapo e aceitar uma cortesia.
Anos depois, eu pude conhecer o homem por trás do texto. O estilo ao mesmo tempo simples, arguto, certeiro e malandro de Jotônio era nada mais que a expressão de sua inteligência e de sua personalidade. Jotônio pensava como sentia, escrevia como pensava, vivia como escrevia. Alimentava tudo isso com um caldo de culturas plurais — ia do dito popular à dodecafonia de Schoenberg; sacava das canções de Boi do bairro Ponte até o romance de Proust. Era adepto do passo lento, mas contínuo. Fazia do bate-papo um exercício de bom gosto. Foi assim que entendi como ele pôde sem qualquer afetação ou arrogância fazer respirar a “juventude do meu coração que só conhecia o que é cruel”, e me dar ali, sem nem saber, uma lição de estilo e de grandeza intelectual.
Jotônio não está “em off”. Jotõnio vai estar sempre on.
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