um poema sobre o teu abrir

abrem-se as cortinas,
abrem-se os meus olhos,
abrem-se as flores da estação.
abre-se o livro na página marcada,
abre-se a voz do artista de rua,
abre-se a porta, a janela, o sorriso, o coração.
abrem-se os caminhos para as possibilidades,
as rugas da terra para o tempo germinar,
abrem-se as panelas à espera do fogo,
da água, da massa, da hora do jantar.
mas, então, quando tudo se fecha,
inclusive as luzes dos vizinhos,
a boca das crianças e das matronas,
e as frestas estelares na lona do céu,
então, abrem-se as tuas pernas,
como um rio primitivo,
abrem-se as tuas pernas,
cachoeira no mar,
abrem-se as tuas pernas,
como chuva sobre a relva
abrem-se as tuas pernas,
manancial de luz — quasar,
abrem-se as tuas pernas
numa liquidez de calor exangue
pra que eu mergulhe suicida,
cobra, peixe, bicho, mangue,
pra que eu me derrame,
lama — espuma — enchente — tempestade
abrem-se as tuas pernas
e eu me deito
como a tarde sertaneja
na margem esquerda do itapecuru a descansar.
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