Sobre bandos e rebanhos

Sou um animal coletivo, um predador de pequeno porte que prefere andar em bando. Mas um bando é uma coisa, um rebanho é outra. Sou um cão que gosta da matilha, um lobo meio-cego que sente orgulho da alcateia – não tenho vocação para ser ovelha. Descobri isso da maneira mais honesta e natural: sendo a ovelha carnívora do rebanho da religião.

De família protestante, desde cedo fui levado aos cultos e iniciado na misteriosa linguagem da fé. Mas minha tendência ao desvio se manifestou também na tenra idade, quando, aos sete anos, totalmente enjoado das homilias longas e enfadonhas dos pregadores da Igreja Cristã, decidi frequentar a Igreja Quadrangular, que era mais desorganizada, onde havia uma professora, excelente contadora de histórias, e onde eles deixavam as crianças cantarem no púlpito.

Na adolescência, voltei a fazer parte de uma igreja tradicional, a Batista. Foi lá que comecei meu aprendizado na guitarra. Eu não teria tido condições de comprar uma guitarra naquela época e o acesso ao instrumento proporcionado pela igreja foi fundamental. Além disso, na igreja eu tive o privilégio de tocar em grupo desde o início. Nunca fui o menino trancado no quarto exercitando arpejos “from hell” – eu tocava com os caras, aprendia as coisas que as músicas exigiam, fluía junto com a energia dos ensaios.

Quando ingressei na Banda Isvã – banda gospel que tocava heavy metal quase 100% autoral – a vontade de tocar era grande e o espaço para o nosso som pesado nas programações das igrejas não existia. Fomos pra rua, fizemos à moda do homem da cobra – chegar tocar e deixar que a própria arte desenhasse o palco e atraísse o público. A arte fez mais do que isso: atraiu comparsas. De repente, não éramos mais uma, éramos duas, três, quatro bandas, caminhando juntas. Rapidamente, não éramos apenas as bandas: tinha as meninas que se arrumavam e se maquiavam para nos ver tocar, tinha os caras que acompanhavam nota por nota nossos riffs e solos, se inspiraram a tocar, escrever, atuar, olhando o que estávamos fazendo. Tinha os coroas que não sabiam e não iriam mais aprender a tocar, não podiam vestir mini-saia e meia arrastão, mas ajudavam dando espaço, emprestando o carro, contribuindo pra que os encontros rolassem.

Claro que os pastores não gostaram daquilo. Claro que quiseram se apoderar do nosso movimento, tomar a palavra, exercer autoridade. Claro que não conseguiram. Ironicamente, foi um pastor – justamente o da Igreja Cristã (este não era do tipo “homilia longa e enfadonha” da minha infância) que nos ofereceu o mínimo suporte pra continuar. Daí foi mostrar pra os outros caras, os que se achavam no direito de controlar ações, palavras e motivações dos outros, que nós não éramos um rebanho: éramos um bando, uma horda, uma matilha de cães de rua.

Eventualmente, alguns desses cães foram adotados, domados e adestrados. Outros saíram por aí e nunca mais foram vistos por ninguém. Outros permaneceram no mesmo lugar – vira-latas de calçada. Eu, cachorro doido latindo pra lua os meus caprichos, segui em busca de outras feras magras marginais pra entoar mais uma vez as nossas sinfonias noturnas. Por que se o galo que lança o canto a outro e este a outro é o que faz a manhã se tecer, também é o latido dos cães reverberando nos quintais, lançado de um esconderijo a outro o que faz a noite ser tecida. E as ovelhas? Elas não tecem nada, elas só servem pra virar tecido.

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