Oficina do Diabo

Sou tentado a acreditar que o artista é o seu atelier. Não me refiro a uma sala, um prédio, um depósito ou um galpão necessariamente — não o ateliê como endereço. Mas para que alguém que poderia, com alguma sorte, ser uma pessoa normal se torne um demônio hiperativo constantemente atarefado na labuta de inventar, é necessário que um espaço seja constituído: um espaço de experiência, um laboratório, um estúdio, uma oficina.

É um espaço virtual que começa na mente do artista, passa pelas extremidades do seu corpo e se estende no tecido espaço-tempo que o cerca, conectando-se a ferramentas, códigos e referências que o acompanham e das quais ele se vale. De modo que a oficina de cada artista é um território subjetivo, afetivo, onde fluem, como água de rio que move o moinho, seus conceitos, insights, técnicas e feelings.

É uma espécie de caos administrado por um delicado matrimônio entre a intuição e a técnica onde o artista o artista se move e forma, deforma, performa, transforma, conforma, informa, reforma, metaforma coisas em lances e lances em coisas. Para Hemingway, o birô, mas também o mar. Para Bukowski, a máquina de escrever, mas também a sarjeta. Para Jim Morrison, o palco, a droga, os poemas de William BlakE. Rimbaud, a viagem — sempre a viagem.

Mas, cuidado: é bom não pensar que se pode, como disse Bachelard, justapor geometrias, sob o risco de compor uma anatomia de peças mortas — o território de criação, o ateliê, a oficina do artista é dinâmico, é caótico. “Moinho e lavra de uma água mental”, disse Nauro Machado. Porém, não é nem onírico, nem puramente mental — é empírico. faz pensar no que diz Ron Müek: “o artista deve ter o corpo de um artesão e a mente de um filósofo” — o trabalho do artista pertence simultaneamente à magia e à técnica.

“Mente vazia é oficina do diabo”, diz o dito popular. Pois, para mim, dado o meu gosto pela ironia — gosto tão antigo que parece natural — a oficina do diabo é justamente a dinâmica ininterrupta do meu cérebro inquieto, os reflexos dessa inquietude como sinais elétricos de 220 volts animando as minhas peças ciborgues e me levando à ação, à invenção, à experiência — não raramente ao fracasso, à frustração e ao recomeço.

No universo de Harry Potter, existe a possibilidade de ampliar espaços por meio da magia. É assim que Newt Scamander, em Animais Fantásticos E Onde Habitam, consegue manter em uma maleta um conjunto de ecossistemas e climas onde mantém em confortável cativeiro os espécimes que resgata. O mesmo truque usado pelo inesquecível Gato Félix. Não me custa conceber que cada artista possui um dispositivo similar que amplia o seu mundo ao mesmo tempo que lhe oferece os recursos necessários para operar. Uma escrivaninha se amplia até ganhar a dimensão da Terra Média, um velho computador que mal consegue rodar o Windows 98 abriga toda a complexidade de Westeros. Numa casa de subúrbio, quase sempre fechada e que nunca recebe visitas se situam os efervescentes universos de Alan More.

E se um artista — um músico, um poeta, um ator, um pintor de quadros, um escultor — é capaz de reconfigurar o espaço para além de suas contingências puramente físicas e dotá-lo de propriedades criadoras, não seria possível que cada pessoa nesse mundo maldito pudesse recompor seus espaços em multiplicidades intraduzíveis e constantemente renovadas, e que elas fizessem de sua própria existência, cada uma delas, a sua obra prima de cada dia?

Porque viver deve ser mais do que uma fatalidade — a mais antiga das artes, a arte pela qual as outras querem existir. Porque viver é um exercício de estética e porque cada dia é uma superfície sobre a qual devemos compor nossas histórias. Não é uma tela em branco, não é uma superfície limpa, virgem e preparada — os dias são corrompidos e todos nós trabalhamos sobre materiais impuros, reciclados, reprocessados, reaproveitados. Operamos sobre sobras, sobre rastros e ranhuras.

De minha parte, tenho a minha oficina do diabo e nela todos os dias eu invento conexões entre insignificâncias e impossíveis e invento meu próprio mal — para uma usar uma expressão bíblica. Tenho ao meu lado instrumentos musicais, instrumentos de corte, livros, canetas e cadernos, tenho máquinas analógicoas e máquinas digitais — opero em códigos variados em momentos simultâneos — faço minha obra e, em fazê-la, me faço, porque não sou o que realizo, mas o ato de realizar.

Por isso é que me tenta a percepção de que o artista pode até ser o artista, mas é o artista e seu atelier — porque eu me sinto eu, desde que seja eu no lugar que eu manufaturei para mim. Eu e a minha oficina do diabo.

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