Aníbal entra em sua sala de estudos, uma biblioteca bem montada, com móveis estio colonial, e se senta em uma poltrona. Senta-se olhando de frente a caveira de Luana, que ele guarda num compartimento da estante, ladeada por livros de Cruz e Sousa e Allan Poe.
Aníbal tem esse jeito dramático.
Ele segura o controle remoto, liga o som: Shine on your crazy diamond. Ele se deixa escorrer pelos acordes, entre lembranças que já se confundem com fantasias. Abre o maço de cigarro com um sorriso amargo. Acende um, desmancha outro, como se quisesse ver a morte nos farelos de fumo.
A luz é pouca, o silêncio é grande, a sombra de Luana passeia pela casa.
Aníbal põe o cigarro no cinzeiro e deixa o fino véu de fumaça flamular pelo ambiente: “se fosse mais doce, talvez não fosse”.
Primeiras convulsões veneno lento: ninguém (ninguém mesmo) tem pressa em morrer..
Luana era linda, doce, pequena e dele. Luana de sonhos simples. Ela deitava nos braços dele, dizendo coisas engraçadas; chorava com a sua ausência:
Luana o amava, alegrava suas manhãs com cartas coloridas, era um deserto ao entardecer. E Aníbal amava Luana – amor sem fórmulas, incomum.
Pulmões pesados, os olhos já não enxergam bem.
A caveira ganhar os contornos tênues do rosto de Luana. Aníbal vê o sorriso, sente os olhos lhe perfurarem. Ele ainda se lembra dos espasmos de Luana em seus braços – magra, leve, quente e louca. O grito de Luana era um chamado do inferno.
Ela se deitou na cama de outro homem.
A noite estava estranha e Aníbal lhe chamava, chorando como uma criança. Sabia o que ela estava fazendo. Em sua cama, ele fechava os olhos e imaginava as cenas. Mas, quando ela chegou, ele não disse nada, deixou-a passar ao banheiro – estava bêbada. Ela não disse palavra, não tirou a roupa, foi dormir em outro lugar da casa.
No dia seguinte, eles fizeram, mas Luana (pela primeira vez) não gozou. O homem com quem Luana se deitou morreu na semana seguinte de um aneurisma cerebral. Dias depois, com o mesmo silêncio consternado do dia da traição, enquanto Luana dormia, Aníbal pôs em seu ouvido uma jura de amor e uma gota de cicuta.
Com suas próprias mãos, ele secou o corpo da menina de 22 anos: fez a carne virar lama e o osso virar pó. O crânio, ele conservou, escondeu na biblioteca, ao lado de livros de Cruz e Souza e Allan Poe. Aníbal era dramático assim.
A noite ia tarde, o silêncio era grande, a sombra muita. Aníbal tentou gritar. Fechou os olhos sobre sua poltrona preferida, diante do crânio de Luana que lhe olhava vitoriosa num compartimento da estante, entre belezas e maldições.
Deixe uma resposta