“É impossível libertar-se de um mundo sem se libertar da linguagem que o oculta e o garante (…). Como o poder é a mentira permanente, a ‘verdade social’, a linguagem é sua garantia permanente, e o dicionário sua referência universal.” A citação é de Mustapha Khayati, no artigo “As palavras cativas (prefácio a um dicionário situacionista)”. E é nitroglicerina pura implodindo nossas ilusões progressistas (se você não é progressista, passa reto — estou falando “entre nós”).
Recentemente, fomos todos confrontados com uma forma grotesca de escamoteamento do real: o que estamos chamando de “fake news”. Elas, notícias fake, porém, reiteram a forma mais antiga de dominação — o que Marx, a certa altura de sua obra, chamou de “ideologia”, mas que também já foi nomeado de “discurso” (Foucault e outros) e que Khayati, na esteira de Nietzsche, chama simplesmente de linguagem.
Assim, à luz de diferentes estudos sobre o poder inscrito na linguagem (mesmo tão diferentes quando as abordagens baseadas em Marx e as baseadas em Nietzsche), há um diagnóstico comum: não é a mentira que mente, a linguagem é em si uma mentira.

Somos acostumados a pensar que as palavras podem “revelar”, “desvelar” as coisas — que elas estão aí para “iluminar”, para “esclarecer” (duas palavras muito caras à nossa tradição intelectual), ou seja: para nos fazer ver a verdade, ver as coisas como elas são. E assim, somos acostumados a pensar que a mentira é um uso inadequado, desonesto, traiçoeiro, mal-intencionado ou pelo menos ingênuo, burro, desinformado, incipiente, equivocado, da linguagem.
Somos acostumados a pensar que se fizermos as palavras coincidirem com as coisas estaremos no terreno da verdade. Mas sendo a linguagem uma invenção humana, histórica, artificial, e sendo ela produto de operações de poder — o mais forte impõe linguagem, inventa palavras, determina as terminologias, fixa o léxico e a gramática, nós usamos um idioma que não criamos e ele se impõe porque assassinou, silenciou, neutralizou outros idiomas e gramáticas, e seu poder de fixação o tempo inteiro confronta nossos usos, nos forçando à adequação à norma sob a alegação de que a comunicação seria impossível sem a norma.
Desta maneira, confiamos na transparência das palavras — acreditamos que através delas podemos ver a “realidade real”, “a vida como ela é”, acreditamos que no signo o significante corresponde verdadeiramente ao seu significado e nos tornamos reféns do dicionário. Já não sei o que são as coisas, sei apenas os nomes atribuídos a elas — penso que ao nome corresponde a coisa e assim sou separado dela. Portanto, a linguagem, ao invés de revelar, esconde.
É o mesmo que ocorre no consumo de fake news. Os fatos não importam, uma vez que haja links com manchetes que digam o “já dito”, que confirmem a expectativa. Se no meu dicionário, esquerda = mal = roubo = perversão sexual = diabo, eu só preciso de quaisquer novos enunciados que façam esses significados emergirem e convergirem. Aponto o meu mecanismo de significação para alguém — pode ser o Lula ou você que lê esse texto — e automaticamente o enquadro no meu esquema de significação, minha mitologia, para usar uma expressão de Barthes. Qualquer narrativa que vier será verdadeira se confirmar a expectativa, será falsa, se a frustrar. Não importa quem você é, importa que a série de correspondências não se rompa.
No caso do consumo de fake news, esse mecanismo funciona de maneira grosseira, é superficial, detectável, evidente (até mesmo para seus consumidores). Mas de maneira mais sofisticada esse mecanismo já funciona em toda a linguagem. Toda a linguagem (e todas as linguagens), como linguagem do poder, é opaca, oculta em vez de mostrar, e todos nós participamos desse baile de máscaras linguísticas, quer tenhamos ou não consciência disso. De maneira que um verdadeiro projeto contra a mentira só pode existir como um projeto contra a linguagem, como um projeto de sabotagem, deturpação, envenenamento, corrosão, sedução, apropriação, reinvenção, todo tipo de operação de saque e vandalização linguística, semiótica.
Enquanto acharmos que vamos produzir mudança nas formas do poder sem produzir a deformação da linguagem e das linguagens, estaremos apenas trabalhando a serviço da manutenção de um estado de coisas. Nossas ilusões progressistas não passarão de ilusões, como é ilusório todo tipo de noção de progresso e como é equivoca a própria noção de ilusão.
Daí que a poesia é o dispositivo mais indispensável em qualquer revolução.
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