Você pairava no horizonte
dançando por sobre os montes
e os vagabundos em degredo.
Você, nos seus cabelos,
o anjo da perdição.
Eu te amava como se ama a lua
– eu era só um cão de rua,
faminto, sujo e desordeiro.
Você, nos seus cabelos,
a asa em chamas do Dragão.
Você brilhava – fogo-fátuo –
no escuro da madrugada:
visagem sobre um rochedo.
Você, nos seus cabelos,
caminho na escuridão.
E eu, bandoleiro perdido,
entre putas e bandidos,
sem casa, sem rumo, sem medo.
Você, nos seus cabelos,
o refúgio de um ladrão.
Você cantava nas ruínas
do tempo, nas colinas,
versos sem som, sem enredo.
Você, nos seus cabelos,
o poder de uma canção.
E eu, um artista andarilho,
num dedo o acorde, no outro, o gatilho:
um soneto, uma praga e um credo.
Você, nos seus cabelos,
o pecado e a salvação.
Você é a religião mais antiga –
tuas pernas, teus seios, tua boca:
as sólidas manifestações do teu amor universal.
Eu te olho além da esquina, além do espelho, além da esfinge: e rompo os séculos no caos do retorno que é porvir e é ancestral.
Mulher selvagem, mulher divina, Maria Virgem, Pomba Gira, poema vivo em língua morta – ciclo de fogo e trevas, heresia natural.
Terra, carne, osso, eras –
mandalas, flautas, lingeries ou velas –
templos, prostíbulos, bares, cemitérios –
tumores malignos, desconhecidos minérios –
os nomes de todas as mulheres,
o gozo de mil orgias,
a alma, a seda e os navios,
os trabalhadores das minas, os vermes…
Você canta, dança e brilha,
você é mãe, é amante e é filha
– um xamã me contou teu segredo
Você nos seus cabelos,
a final revolução
revelaç
rev
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