A noite está presente em mim, faz parte de mim – é como a minha alma se vê. Sento-me a um canto escuro e respiro a umidade, deixo a poeira molhada de orvalho invadir minhas narinas, obstruir minha respiração. Busco a brisa, busco as aves de rapina – esforço-me para sentir o medo dos roedores que andam furtivos na penumbra, eles soltam guinchos, arrastam a barriga gorda pelo chão.
Tento ver o rosto dos fantaxmas que se escondem nas paredes, nos lugares vazios, nos corredores desocupados. Em algum istmo noturno entre a consciência e o momento de sonhar pode-se ouvir a voz de gente morta, ecos do passado ainda ressonantes nas entranhas do ser-do-mundo. A noite é como uma serpente que se arrasta em silêncio – ela arma o bote e devora sem apelos – vai-se sem remorsos, deixando um rastro curvilíneo de terror.
Aqui no meu silêncio, eu apuro os ouvidos: gosto de ouvir os pés das musas quando elas se aproximam. Vejo uma delas saltar a janela de um poeta, vejo suas silhuetas finas misturarem-se à névoa. Posso ouvir sussurros leves que vão borboleteando noite a fora, noite a dentro – são versos que se espalham, pedaços de espelhos que batem asas na hora da fantasia.
A última musa da noite paira sobre mim. Seu beijo tem ainda o gosto de um poeta que morreu. Suas mãos são quentes como as fogueiras da inquisição. Faça um feitiço, ela me diz. E eu deixo o fogo arder dentro de mim, encantos de um passado remoto vêm à tona no meu corpo… E a minha boca diz palavras que eu não sabia que existiam.
Sinto-me possesso, é como se eu fosse morrer.
Mas, então, o cansaço me embriaga e o último carinho da poesia me afaga. Meus olhos se fecham sozinhos, minha carne perde a rigidez. Apenas o fôlego – resquício de deus – me diz que eu estou vivo. Imagens de outros mundos me perturbam, como alucinações de louco – e a loucura me abraca.
Essa é a hora em que o sol se anuncia – fagulhas miúdas no horizonte. A noite abandona meus ossos, e eu sinto vontade de cair – e caio: é cedo agora, já é tempo de dormir.
Deixe uma resposta