Colecionar é uma arte.
Walter Benjamin já apontava as virtudes semióticas da atividade do colecionador – ele desloca os objetos de seus lugares originais e os realoca em novas séries, produzindo significado e valor.
Considere os números numa lista de telefone: são apenas informação. Mas se um colecionador seleciona números de telefone e os cataloga segundo seus critérios especiais, esses números passam a uma outra ordem de existência, de modo que na coleção, a arte não está no colecionável, mas no processo de colecionar – isso faz do colecionador um artista.
O Colecionador de Cabeças
Carvalho Junior é um poeta e um ativista literário – desenvolve um trabalho insistente e persistente de produção, pesquisa e divulgação da Literatura, dele e de outros.
Os métodos são os mais diversos: atuação em academias de letras, em coletivos literários, organização de saraus e encontros, publicação de livros, vídeos, musicalização de poemas, rodas de conversa, formação de público leitor, entre outros.
Um deles, porém, me chama a atenção: Carvalho Junior mantem um blog chamado QUATETÊ, no qual publica seleções de textos de poemas diversos, sempre no formato 4 textos/autor.
De maneira que, em seu processo constante e ininterrupto de selecionar assinaturas e textos, ele opera a técnica do colecionador e acaba produzindo, no interior de sua máquina-quatetê, a invenção de um valor-poesia cuja medida é a leitura fantasma que ele faz mas não enuncia.
Não há crítica, não há comentários, não há justificativa – de um infinito virtual de escritores, ele pinça espécimes e os posiciona como numa exposição virtual de cabeças (“cabeças poéticas”, ele diria).
Sobre cada cabeça de poeta, uma ficha informativa e o número constante de quatro artefatos literários delas nascidos.
Minha Poesia na Quatetê
Também eu fui um poeta quatetetizado. Meu nome, minha cabeça e quatro de meus poemas também foram colhidos – ou capturados? – pelo tino, mão e senso de Carvalho Junior.
Poeta fictício que sou, minha cabeça foi tratada com artes de bruxo e se encontra lá, entre outras, falante e cantante, ainda morna de um sangue que não esfria.
Valor-Poesia – Mokomokai
De alguma maneira, o projeto editorial rizomático de Carvalho Junior é um acervo rebelde – sem nenhuma pretensão canônica ou antológica, sem qualquer proposta crítica ou crivo teórico.
A Quatetê se orienta pelo estalo do sentido – se algo fagulha na sensibilidade do colecionador, se ele enxerga em algum texto ou autor, então ele as coleta e acrescenta ao acervo de cabeças envernizadas.
O valor produzido não é literário, não em sentido tradicional, e não é dos textos coletados em si – o poeta inexperiente e de pouca sofisticação figura ao lado de artistas consumados, mas todos estão ali cobertos pela mesma aura, pela mesma legitimidade do sensível partilhado da qual Carvalho Junior é vetor.
Para lá da utilidade prática do blog – divulgar nomes e obras – Quatetê produz estética com o que incorpora em si: a estética inconfessa da escolha. Mas, cuidado: nada ali é aleatório! Como os Maoris que preservavam cabeças, não pela morbidez da prática, mas pelo teor estético nelas inscrito em forma de tatuagem – as Mokomokai – também Carvalho Junior considera as tatuagens de suas cabeças colecionáveis: os poemas são as tatoos.
E nisso consiste o seu valor-poesia: uma arte de colecionar cabeças.
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