Jimi Hendrix não foi apenas um músico revolucionário, foi um tipo de xamã. Hendrix encarnou algo mais profundo que o – já absurdamente profundo – amor pela música: ele encarnou a fé na Música.
Não uma fé dogmática. Não a fé excruciante dos que gozam com a abnegação. Não a fé sacrificial dos mártires cujo tesão é a tortura. Nem a fé burocrática dos inquisidores e dos mestres catecumenais. Fé sinestésica, cortical, subcortical: uma fé mitocondrial, citoplasmática, epidérmica e biliar – a fé que Jimi Hendrix tantas vezes manifestou ter na música é uma energia entranhada nas estruturas do corpo, que vibra e abala todas as estruturas do corpo, e anima, acende e vivifica o corpo.
O que torna esta fé tão potente é o fato de ela não ser nem dom, nem iluminação – é produção ininterrupta de experiência, é usinagem. Jimi Hendrix, sua guitarra, seu chiclete, sua bandana, seus amores esfacelados – a máquina revolucionária de trilhar o caminho da música como transgressão.
Existe em Hendrix uma coisa de fantasmagórico: atravessar o mundo e ser atravessado por ele, mas sem esbarrar nas suas densidades. Exatamente como a música é capaz de fazer. Existe em Jimi Hendrix uma recusa dos programas formulados – porque precisamos do partido comunista, do partido conservador, de todos esses movimentos e essas sociedades secretas e essas receitas prontas e narrativas pré-moldadas? Por que precisamos tanto das identidades? A fé de Jimi Hendrix o fazia entender que a resposta estava na sensibilidade do improvisador, não na partitura mecanicamente executada.
Miles Davis, Bob Dylan, Eric Clapton, Little Richard – esses eram seus profetas, esses os seus filósofos, esses os seus heróis. Era neles que ele enxergava, entre ondas coloridas fractais, uma revolução que se aproximava quente, suave e bonita e que nem todos os tanques de guerra e câmaras de tortura do mundo seriam capazes de deter.
A fé de Jimi Hendrix continua viva, porque a música jamais morreu. “Quando eu morrer, continuem tocando os discos”, ele falou. E o mundo continua em seu duplo movimento paradoxal de mudar para manter e de repetir para diferenciar, e nós olhamos para ele perplexo em sua marcha absurda de destruição e aniquilação e nos perguntamos, como Lenin, que fazer?
E Hendrix vem montando cavalos coloridos disparados pela aurora meridional: “e tem algo a ser mudado neste mundo, isso só vai ser possível através da música”.
Leia aqui uma matéria na Rolling Stone sobre essa performance.
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