“Os poderes de uma canção”

Num texto tocante, Suely Rolnik fala sobre sua experiência de reinvenção de si, depois de absorver no corpo a violência brutal da Ditadura brasileira.

Ela conta sobre como todo um processo de cura, de produção, de invenção se condensou em uma nota de uma canção de Gal Costa que ela emitiu em uma aula de canto em Paris.

Quem lê os textos de Suely Rolnik sabe como a vibração ocupa um lugar privilegiado na sua linguagem, na sua produção de conceitos, e nesse relato a força imanente do fenómeno vibração pode ser sentida, percebida, compreendida, traduzida de maneira decisiva.

A vibração de uma nota salvou uma parte da vida de Suely Rolnik, salvou devires se Suely Rolnik – livrou o sensível de Suely Rolnik de um recôndito de trevas, medo e silêncio compulsório.

Na sua narrativa – que é produção – ela dá destaque ao gênio de Deleuze, que soube ler nela a força e a fraqueza e captou a direção dos seus devires, sendo capaz de prever com anos de antecedência o sublime amadurecimento daquela nota aguda cortante, capaz de separar juntas e medulas:

“Nunca perca sua suavidade, ou os poderes de uma canção”, ele teria dito.

De muitas formas, o discurso de Suely Rolnik é potente, mas eu quero assinalar uma delas: uma mulher, um corpo, açoitado pela truculência de um regime encontra sua revolução na suavidade de um som, que é poesia sem signo. Ou seja: a arte injetou vida na vida, sabotando a violência do fascismo, cancelando os investimentos da morte.

Sem panfletarismos, sem cartilha ideológica e sem programas partidários – apenas a música, símbolo incompleto, vibrando no corpo, explodindo no corpo, transbordando no corpo, excitando e acalentando o corpo: apenas o fluxo suave do sensível derrotando a máquina excruciante do Estado totalizante.

Às vezes me pergunto qual é mesmo o valor da arte. Então me lembro do relato de Suely Rolnik, das palavras de Deleuze e as coisas parecem claras: existe na arte o valor incalculável de uma suavidade, ou os poderes de uma canção.

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