Arte e Magia – o ofício do bardo

A música é a arte original: das entranhas da música nasceram siameses o teatro e a poesia – nasceram mágicos, nasceram místicos, nasceram como forma de comunicação não dos homens com os deuses, mas dos deuses com os homens.

Música, poesia e teatro são formas ancestrais de arte que guardam até hoje, apesar de toda parafernália tecnológica que as envolve, uma aura xamânica – ainda reconhecemos no artista algo de transcendente, de intransigente, de irremediavelmente quintessencial.

Nas palavras do poeta; nos sons expressos pelo músico; no corpo possuído em transe textual do ator; podemos reconhecer uma mensagem vinda do além, do transversal, do intangível, não-narrável, não-discritível, não-dissertável.

O poeta – assim como o músico e o ator – é o que existe hoje de mais próximo dos legítimos sacerdotes, aqueles que guiaram os primeiros humanos em suas primeiras jornadas no mundo espiritual.

Artistas, não padres e pastores, são descendentes dos sacerdotes primordiais – eles não guiam os homens ao sobrenatural, eles guiam os espíritos até a aldeia: eles fazem o mundo obscuro se manifestar na matéria discernível, são frestas de luz celeste que banha de claridade nossas trevas existenciais.

O artista é um mago, um pajé, um canibal – ele imola na fogueira até o coração pulsante dos reis com seus punhais de madeira e suas fumaças de ervas alucinógenas.

O cantor/compositor – descendente direto dos aedos gregos, dos menestréis medievais, dos bardos errantes de todas as culturas antigas e, claro, dos antiqüíssimos profetas que pregavam em verso e música nas praças das cidades condenadas – é o resquício mais elementar dessa alquimia esquecida

Trovador, portador de um saber não imprimível, manipulador de uma semântica frágil e volátil que, como certos vírus (ou miasmas) só sobrevive no ar – o cantor/compositor, singer/songwriter, o cantautor, é um fantasma de outras eras emersas nas brumas do passado que ainda vagueia nas feridas de nossas cidades.

A arte como magia, a magia em suas novas formas – as sabedorias genéticas em novas criptografias – a teimosia das culturas mortas.

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