
Alguns músicos se sentem bem tocando no estúdio, emprestando seu talento para que a música de outros artistas se fortaleça e siga em frente. Há também aqueles que se munem de um instrumento e alguns recursos tecnológicos e fazem solitariamente o seu caminho pelas estradas. Mas alguns são como eu: são como cães, por mais que possam sobreviver sozinhos, preferem andar em bando. No meu caso, em banda.
Eu sou assim porque, como eu já escrevi em outros textos, se não fosse pelo meu contato corpo-a-corpo com os amigos, se não fossem os ensaios várias vezes por semana, por vários anos, se não fossem as horas e horas de irresponsabilidade nas calçadas, se não fossem as fitas K-7 que passavam de mão em mão com aquela música que a gente não podia comprar, os VHS com vídeo-aulas dos professores que nunca iríamos conhecer e aqueles truques que um cara aprendia não sei onde e ensinava o parceiro com toda liberalidade… Sem essas coisas eu não teria me tornado o músico que sou.
Eu poderia até ter aprendido a tocar as músicas, mas nunca teria a simbiose vibrante e sinestésica que adquiri nessa minha formação sem forma, formação sem programa e sem disciplina, nesse aprendizado de rizoma, de onda, de surpresa e de afetos. Quando eu toco, estou todo ali, sou todo atravessado pela vibração do som e pelas outras vibrações inaudíveis que cortam o espaço. Por conta deste destino, é que tocar sem as conexões, os afetos, a poesia, o companheirismo e a confiança dos parceiros é um jeito de tocar meio surdo, é como se faltassem frequências no timbre, é como se a afinação estivesse sempre oscilando.
A banda é o lugar onde eu posso ser eu mesmo, musicalmente falando. Ou melhor, é o lugar onde eu invento e reivento meu eu no swing das improvisações. Na banda, fazemos coisas idiotas a troco de nada, perdemos o que ganhamos com muito trabalho, ganhamos coisas inesperadas, presentes surpreendentes. A banda extrapola seu elenco: ela é feita de amigos espalhados pelas esquinas, quintais e quartos de motel, amigos que cuidam do som, amigos que levam o sonho pra longe, amigos que dão dicas, que fazem críticas, amigos que te dão carona para o ensaio.
É por isso que a estrada da música, pra mim, tem que ser trilhada assim – a bagagem que levamos é a da amizade, ela nunca pesa e nunca falta, a gente deixa ela em todo canto e de todo canto leva também. Quando pegamos nossos instrumentos e começamos a tocar tudo isso se metaboliza em som, eletricidade, corpo/dança e a sensibilidade vibra como pele de tambor. Mas vibra como uma carga de humanidade tão forte que a humanidade racha para fazer surgir o inumano no homem, algo além do humano, algo que só o Wilson Zara saberia explicar.
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