Cachorro Malvado, o melhor amigo do guitarrista — homenagem ao meu primeiro amplificador

Em 2003 eu comprei o meu primeiro amplificador. Era um Washburn transistorizado de 25W, uma série com o nome afobado de Bad Dog — e eu dei a ele o nada criativo apelido de Totó. Eu tinha 19 anos e era professor de música no Colégio Batista, aquele cubo custou todos os 200 reais do meu salário. Na verdade, quando ele apareceu na única loja em que, de vez em quando!, se conseguia equipamentos musicais em Codó, ainda faltava uma semana para eu receber minha pequena fortuna e eu tive que pegar a grana emprestada com meu avô. Nunca foi tão saboroso pagar uma dívida.

Aquela caixinha que devia medir uns 40/40/30cm parecia gigante pra mim. Quando eu lembro, eu ainda posso sentir a descarga de dopamina que meu corpo liberou quando saí da loja carregando aquilo pela alça — ou seria pela coleira? Até então,eu costumava tocar usando a famigerada pedaleira Zoom 3030 — e o som que eu tirava dela se parecia com um esmeril instalado no meio de uma catedral, ficava lá a coisa zumbindo, o eco enchendo o espaço e as repetições se multiplicando no infinito.

Mas aí eu lia na Guitar Player os caras falando sobre amps, e overdrives de amps, e reverbs de mola (o Totó tinha reverb de mola! LOL), e delays de fita. E aquela coisa toda sobre “som orgânico”, mantra que todo guitarrista já ouviu mil vezes, repetiu dez mil e mesmo depois de ter enjoado continua repetindo. Quando veio a oportunidade de ter um amplificador, de fazer o som no pŕoprio autofalante, era como mudar de patente na hierarquia da guitarra. Era a mesma sensação de quando se muda do lápis para a caneta, do copo de plástico para o copo de vidro — dá pra sacar?

Eu era realmente um cão selvagem com aquela caixinha minúscula. Ela tinha um canal limpo e um sujo, mas em geral, eu usava apenas o limpo, bastava aumentar o volume e deixar o autofalante saturar e eu tinha um overdrive delicioso. Se eu tocasse mais forte e no captador da ponte, ele saturava tanto que virava distorção. Eu não fazia ideia de que quando comprei o Totó eu estava entrando num verdadeiro laboratório de timbres. Com ele eu aprendi a fazer soarem as frequências certas controlando apenas a intensidade do golpe, substituindo no meio de uma frase o toque da palheta pelo do polegar, dando uma burilada no volume ou no tone (aquele biloto que sempre tinha parecido inútil).

Meu Washburn Bad Dog, o Totó, foi mesmo um grande amigo. Mas o teste de fogo ainda estava por vir. Eu me juntei a uns caras muito doidos e muito sangue-bom pra formarmos uma banda de rock gospel. O Nilson, o Carlinhos e o Fabinho me chamaram para formar a Banda Isvã, um projeto vencedor que, junto com parceiros de outras bandas, desenhou uma cena de rock memorável na cidadezinha de Codó no limiar do XXI, uma cena da qual herdei algumas de minhas melhores amizades. E tudo começou naquela noite de sexta-feira! Nós ensaiamos umas quatro músicas, pegamos os instrumentos, umas caixas de som da Igreja Presbiteriana, roubamos energia de um poste (o que não é muito recomendável, viu crianças!) na principal avenida da cidade — e sentamos a ripa no rock n’ roll.

O Totó ao meu lado, grunhindo como um cão de caça, o povo começando a aglomerar ao redor de nós. O vento soprava os meus cabelos que já eram compridos naquele tempo e a música saia com uma inocência e uma alegria que é muito difícil de explicar. Talvez nunca tenhamos sido tão jovens — e tão maduros. E foi aí que começou a chover!

Chuva de verdade! Chuva nos nossos instrumentos. Chuva escorrendo pela gambiarra que roubava energia elétrica do poste. Chuva no meu amplificadorzinho novo, na minha guitarra também Washburn de 1987. Nós olhamos um para o outro como se perguntando o que fazer. Não precisávamos responder, era óbvio. Nós continuamos a tocar. Ás vezes eu penso o que teria sido de mim se eu tivesse vacilado naquela hora — eu tenho orgulho de não ter abandonado a música e acho que, talvez por isso, ela nunca me abandonou. As pessoas também não nos abandonaram, ficaram até o fim.

E o Totó? Quando o levei para o um lugar seco, ele deu aquela sacudida, abanando o rabo e perguntando quando seria a pŕoxima. Tocamos juntos por mais de dez anos e trilhamos muitas estradas. Hoje ele tem uma vida mais tranquila, toca com o Johnny Casanova nos ensaios da Banda de Música da Prefeitura e passa muito bem, obrigado!

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