“Uma valsa, uma balada e um blues” – novo EP de Isaac | Poematron

Uma valsa, uma balada e um blues é um EP de três faixas lançado no dia 13 de janeiro de 2025 por Isaac Souza em seu projeto Isaac | Poematron.

O trabalho apresenta arranjos densos de violão e guitarra, canto recitativo, e explora de maneira estilizada ritmos e formas recorrentes no universo do que alguns chamariam folk rock.

As Canções

Todas as canções são autorais, escritas em diferentes momentos entre 2019 e 2024. Cada uma delas atualiza à sua própria maneira a atmosfera de misticismo e erotismo típica da poesia do artista.

Balada de uma dama

Apareceu pela primeira vez no programa Café e Canção, no canal da banda Casino Quebec, no ano de 2019, em gravação caseira experimental.

Seu arranjo amadureceu ao longo do tempo, em intervalos de ensaios, em que a música era tocada descompromissadamente.

balada de uma dama

dama da fonte vermelha de argila,
tua pele de barro vermelho destila

fluidos cristais que dominam a matilha,
fluxos carnais de delírio e heresia
dama da fonte vermelha
de águas termais
me faz ter mais
magia.
dama que monta um corcel do oriente
as coxas em pelo, disparo incandescente
tuas asas se estendem a estilhaçar correntes
espadas se quebram em teus peitos e dentes
dama que monta um corcel
que a alvorada traz,
eu vou atrás,
me guia.

Valsa para te abraçar

Escrita em 2024, é um poema estruturado em quartetos paralelos que sempre se concluem no mote “vontade de abraçar”, que na canção faz as vezes de refrão.

A singeleza quase infantil dessa estrutura é acompanhada por uma melodia em compasso ternário que dá a ela o pulso de uma valsinha. O clima dócil é rompido por uma brusca alteração harmônica e pela irrupção antimusical de um recitativo em verso livre que evoca imagens grandiloquentes, mas enfim repousa novamente na tranquilidade do refrão.

O poema também apareceu na primeira edição do fanzine Poematron.

Valsa para te abraçar

se sou um corpo que se lembra
se me lembro ter um corpo
sinto vontade de te abraça
vontade de te abraçar


quando a chuva sapateia
no salão do meu telhado
sinto vontade de te abraçar
vontade de te abraçar


o meu colo, teu descanso
o meu peito, tua preguiça
sinto vontade de te abraçar
vontade de te abraçar


eu vejo a pele da tua dorsal
povoada por pássaros e plantas
e os fios dos teus cabelos são como asas quase
virgens
desenhadas em madeira viva e quente que um vento
áspero poliu
eu vejo a sombra dos teus seios
como um zepelim fantástico de perfume
cobrir meus olhos fumegantes e dançar no umbral
do arco-íris quando dedilho minhas melodias de
saudade


e sinto vontade de te abraçar
vontade de te abraçar

Mina de Carvão

Um hino ao corpo, à tradução carnal do sentimento de amar. A mulher que aparece como dança e como cor, que o ocupa o território do desejo e joga o erótico da conquista em que o vencedor se entrega e o dominado manda. Dores e prazeres irrompendo no corpo e nos versos. Sexo absolutamente descolado da natureza e da fisiologia – sexo como arte.

O ritmo coloca a canção nos limites do blues, mas sua harmonia e estrutura extrapolam essa fronteira, aproximando-a da psicodelia, mas sem se confundir com ela.

Mina de Carvão

ela chegou à minha vida:
perfume, cachos e batom.
dançando blues, canções perdidas,
sambas, chorinhos e outros sons

feita de manha, feita de fogo,
sussurra a surra, norte e sul.
agarra e arranha, manda no jogo,
suga, suplica e ri: “mais um!”

ela nasceu da terra erma
ou da cratera um vulcão.
bebe poesia de rima rica,
come o reverso da canção.

noites escuras, noites em claro,
ferros, ferrolhos e tabus.
morde a mordaça, choro e amparo,
desejo ardente, nu e cru.

e o ranger da madrugada
faz a vizinhança despertar
na suíte, na calçada,
se ela quer, não tem lugar
nem as últimas notícias,
nem a linha de morte na mão,
nada importa, só as delícias
que ela traz, ela faz, ela jaz,
mina de carvão

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