A poeta maranhense de “feminilidade viril” tem uma dicção lírica que se apropria e reinventa a sua sonoridade natal.
O “Pequeno ensaio amoroso”, de Luiza Cantanhêde, não deveria ser lido como um livro sobre o amor. Ela é poeta de escolhas cuidadosas de vocábulos, e sua decisão pelo adjetivo “amoroso”, em vez do substantivo “amor” para compor o título da obra não deve nos parecer fortuita. Luiza não nos diz o que ela ensaia, apenas que ensaia amorosamente. E se ela faz do amor um signo que atravessa a obra não é porque o toma como tema, mas porque faz dele sua energia.
Poema após poema, a coletânea exprime a feminilidade viril de um corpo que atravessa a vida atroz sem perder leveza nem tesão. Luiza abre para nós sua paisagem subjetiva enquanto redesenha seu corpo físico num corpo-memória, um corpo-desejo, um corpo-poema. Poemas que são expressões de um corpo em suas viagens afetivas e, portanto, cartografia de voos, mergulhos e solidões — viagem pelos territórios inenarráveis do que, por pobreza de linguagem, reunimos sob o signo do amor.
Não pode ser por acaso que o livro comece (dedicatória) e termine (último poema) invocando a figura da mãe. Nem que o primeiro poema seja em seu primeiro verso um salto para o interior que conduz ao silêncio, à solitude e à escuridão. Há a promessa de que a candeia se acenderá, mas por hora, ficamos com a poeta em seu quarto, em seu dentro, com suas ausências e seus escuros.
A metáfora do quarto escuro e outras que lhe valem retornam ao longo do livro: mesmo enquanto ergue imagens as mais refinadas, e quando nos conta fragmentos de coisas que narram sem informar, a sensação é de que a poeta quer, de fato, nos fazer tatear na opacidade dos seus não-ditos e não-sabidos, quiçá. Tatear na ignorância dela sobre si mesma: todo voo para dentro é um voo é um voo cego.
O “Pequeno ensaio amoroso” é, sob esta perspectiva, uma escrita como pela técnica do estêncil: os afetos, os amores, as memórias, os devires que se inscritos no corpo são assim inscritos sobre a página, no contato do corpo com a página. Corpografia: um erotismo do ato de escrever, um escrever que é um tocar-se, um tocamo-nos, o absoluto do toque. E o toque é, afinal, a coisa mais próxima que existe do conhecimento. Como Edwar Castelo Branco gosta de repetir, citando Walt Whitman: não há nada maior ou menor do que um toque.
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