A obra é resultado de esforços de acadêmicos e de parceria com o governo estadual
Neste texto, apresenta-se um histórico do projeto de restauração da fachada da Academia Caxiense de Letras e um comentário sobre o potencial impacto cultural da obra na paisagem e na consciência de Caxias.
Pequeno histórico do projeto

Já faz alguns meses que a sede da Academia Caxiense de Letras está em obras. Trata-se de um projeto ousado: a restauração da fachada do prédio, cuja construção remonta ao século XIX.
Tudo começou quando o arquiteto e membro da Casa de Coelho Neto, Ezíquio Barros Neto, encontrou uma imagem do início do século XX em que aparecia o casarão que hoje é sede da instituição.

Sabia-se que ao longo do tempo, a construção já havia abrigado diferentes propósitos — escola de culinária, armazém, comércio. Sabia-se também que nesse processo o aspecto da fachada foi alterado mais de uma vez. Mas a descoberta da fotografia mais antiga conhecida do lugar ofereceu uma imagem do que estaria abaixo de todas essas camadas de tempo e transformação.
Nasceu o sonho de pentear a contrapelo essas transformações e iniciou-se o percurso para torná-lo realidade. Sob coordenação do acadêmico Renato Meneses, iniciaram-se as movimentações em busca de recursos.
A primeira tentativa foi por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Maranhão — nessa fase. o grupo de acadêmicos mobilizados, que contava também com Isaac Souza e Ezíquio Barros Neto , contou com o apoio do deputado estadual Adelmo Soares. O certificado de captação foi obtido, mas a captação em si encontrou diversos entraves nas estruturas clientelistas do poder econômico no Maranhão.
O governador Flávio Dino também havia empenhado seu apoio a essa empreitada, porém sua saída do cargo em razão das eleições de 2022 iterrompeu sua ação. Logo após assumir o cargo de governador, Carlos Brandão recebeu o trio de escritores no Palácio dos Leões e ouviu sua demanda, que viria a atender dois anos e meio depois.
No ínterim, já incrédulo da participação do estado, mas sem perder o ânimo, o poeta Renato Meneses — tesoureiro da Academia na gestão do presidente Ezíquio Barros — coordenou uma campanha de financiamento coletivo, dando início às obras com doações de acadêmicos e cidadãos com capacidade e disposição para tanto.
Atualmente, a obra se encontra em estágio avançado e já se pode ver na paisagem urbana o seu impacto estético.

Uma ação pedagógica para uma cidade anestesiada
A ação da Academia Caxiense de Letras pode ter um efeito pedagógico sobre a consciência de Caxias, enquanto comunidade.
Num tempo em que o comum é ver o acervo paisagístico arquitetônico ser pulverizado (literalmente) inclusive pelo poder púbico municipal, essa iniciativa contramão pode ser, afinal, a indicação de um caminho.
A imponente presença do prédio restaurado no centro da cidade há de mostrar na prática que a cidade só tem a ganhar com a preservação de seu acervo — ganha-se não apenas a fruição estética do cidadão, mas o próprio espaço urbano é valorizado pelo embelezamento e pelo valor agregado em história e memória que ele representa.

Trata-se de um capital que Caxias possui e que ou desperdiça ou dilapida a cada vez que uma marreta derruba uma platibanda.
Além do mais, a Academia coloca em pauta um novo ponto no hipócrita debate sobre a conservação — hipócrita porque é um debate repleto de palavreado e vazio de ação: a questão da restauração.
Não se trata mais de conservar ou preservar — quase não há mais o que preservar ou conservar. O que é preciso fazer para devolver a Caxias o status de cidade histórica — e consequentemente o seu potencial econômico como destino do turismo cultural — é investimento em pesquisa e restauração de ícones arquitetônicos.
Se, por um lado, Caxias parece anestesiada, não grita, não chora, não se move, enquanto lhe amputam tantos pedações de história. por outro, a Academia propõe-lhe na prática um modo de regeneração.
Para conhecer e refletir
No início deste ano, a Academia Caxiense de Letras, via Lei Paulo Gustavo, produziu um documentário sobre patrimônio histórico em Caxias. É oportuno.
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