Minha versão para uma música de Dylan/Hendrix — exclusiva para o show Poematron

No showzine Poematron, eu me dou certas liberdades e permito-me algumas experiências.
Considerando que um dos meus objetivos com esse trabalho é aproximar a poesia do seu lugar de direito — a noite, a rua, o bar, a cabeça dos embriagados e das mulheres que dançam — e considerando que nós, brasileiros em geral, não falamos outra língua além da nossa, eu decidi verter para o Português algumas das canções em Inglês do repertório.
Como sou um guitarrista cujo sotaque foi definido pela escola do blues e do rock n’ roll (que nada mais é do que blues), não é de se estranhar que eu traga para o roteiro desse show alguns sons do Jimi Hendrix. E uma das minhas músicas preferidas do selvagem é um cover que ele fez de All Along The Watchtower, do Bob Dylan (que também é uma referência importantíssima para mim).
All Along The Watchtower é um dos textos mais enigmáticos do bardo de Minnesota: o diálogo apocalíptico de um ladrão e um palhaço no que parece ser uma prisão panóptica. Eu realmente gostaria de aproximar essas imagens do meu público. Então, tomei a pena sem pena e recriei o poema no nosso idioma roubado — não é uma tradução literal, mas eu preservo as imagens e a estrutura das rimas, resguardando porém pela métrica incerta do verso livre que marca o estilo do próprio Bob Dylan.
Dá-se com o texto o mesmo que se dá com o arranjo — embora inspirado em Hendrix, não é uma cópia. Nós nos apropriamos da música e a recompomos em nossa própria dicção musical. Como o próprio Hendrix fazia, todos os solos de guitarra são improvisados, embora certa sonoridade geral seja preservada.
Para concluir, fica aqui minha versão do poema de Dylan:
Torre de vigia
Deve haver uma rota fuga,
disse o palhaço ao ladrão.
Aqui, tudo é tão confuso.
Não tem alívio, não tem, não .
Executivos bebem meu sangue,
fazendeiros fuçam meu chão.
E homem nenhum nessa extensa fila
sabe o valor de um tostão
Não há porque tanto agito,
disse o ladrão, com voz adoçada,
muitos de nós também sentem
que a vida é só uma piada.
Mas nós já somos velhacos
e este não é o nosso fim.
Paremos de falar como hipócritas,
o Sol já quer se despedir.
Tudo ao redor da torre de vigia
os poderosos podem observar:
os corpos das mulheres em trânsito,
criados descalços a trabalhar.
E bem ao longe se escuta
um gato do mato grunhir.
Vêm as sombras de dois cavaleiros
e o assobio do vento se faz ouvir.
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