Este texto comenta os filmes Um canção de amor para Bob Long e O sétimo selo. Contém spoilers
Uma canção de amor para Bobby Long é um dos meus filmes preferidos, e eu eventualmente escrevo coisas sobre ele desde a primeira vez que o assisti, ainda no ano de 2008.
Já escrevi sobre a bela trilha sonora folk, liderada por Grayson Capps, que fez para mim a ponte de volta às sonoridades da minha infância (das quais eu havia me distanciado quando o estudo da guitarra me bitolou nos dogmas do Heavy Metal).
Ou, quem sabe, antes disso, você encontre algum comentário meu sobre as constantes referências à Literatura em língua inglesa que não só atravessam todo o filme como o costuram, articulam e servem de esqueleto, sangue e ossos para seus personagens principais – marginais, avessos do mito do “self made man” americano, dotados do profundo lirismo que acompanha os derrotados inteligentes e sensíveis de todos os tempos.
Mas hoje quero falar de uma coisa de que só esta semana me dei conta: uma citação de Ingmar Bergman na cena final do longa. Então, se você nunca viu esse filme e não gosta de spoilers, salve este post para ler depois e vá assisti-lo agora.
No final do filme, a jovem Purslane (Scarlett Johanson) e o velho ranzinza, decadente e amargurado Bobby Long (John Travolta) descobrem que são pai e filha e têm suas feridas afetivas banhadas no unguento curativo do amor e da arte de Lorraine – uma cantora de jazz e folk de Nova Orleans, mãe de Purslane, que foi por um breve período amante de Bobby Long. Purslane conclui a High School e consegue uma vaga na Universidade, e todos os velhos amigos de Lorraine, como uma grande família, se reúnem para comemorar, no campo, no alto de um outeiro.

Depois de um discurso eloquente de Bobby, o velho poeta, vamos ouvir a canção que Lorraine havia escrito para Bobby Long, inspirada no livro O coração é um caçador solitário, de Carson Mccullers, que ele, professor de Literatura, certa vez a havia dado. Purslane e Bobby Long dançarão a balada de Lorraine e numa transição suave a cena corta para o epílogo em que ela visita o túmulo de Bobby, deixando para ele o livro que tem o mesmo título do filme, que conta sua história.
Mas antes de eles chegarem ao último platô, Bobby, Lawson e todos os outros velhos amigos de Lorraine – cada um deles, de alguma maneira, um pai de Purslane- caminham em fila, recriando um dos planos mais belos da história do cinema: o final de O sétimo selo, de Bergman, quando o cavaleiro Antonius Block e sua comitiva são conduzidos pela morte em última dança.
As consequências dos anos de alcoolismo haviam deteriorado o corpo de Bobby e nós já sabíamos que, assim como o cavaleiro de Bergman – ele estava condenado. Também sabíamos – desde que a partitura da canção de Lorraine fora encontrada – que iríamos ouvir sua música antes de o filme terminar. A diretora Shainee Gabel, no entanto, ao citar o plano bergamaniano nos coloca diante de uma dobra barroca em que caminhar para uma canção de amor se torna, também, caminhar para a dança da morte. A ironia se aprofunda pois a dança de Bobby com Purslane é também a dança de sua vida. Ao contrário de Antonius Bock que chega ao seu destino sem as respostas que queria, Bobby Long encontra o sentido de sua vida no amor de uma amante que perdeu e de uma filha que mal chegou a encontrar, numa canção que esteve perdida por anos, em uma caixa empoeirada debaixo do seu nariz embriagado e entre amigos que, no mais das vezes, o que ele fez foi ofender. Bobby se parece mais com Jons, que no filme de Bergman produz suas soluções filosóficas na aconchegante sequência em que o grupo dos guerreiros e dos artistas improvisa um singelo piquenique com amoras silvestres e leite fresco.

De alguma maneira, o paralelismo entre os dois filmes é geral. Bobby e Lawson, como cavaleiro e escudeiro (decalque de Dom Quixote) atravessando um mundo periférico, perseguidos pela dúvida sobre suas escolhas na vida, tentando dia após dia ganhar algum tempo a mais da morte que lhes segue sempre de perto. Mas o que eu gostaria de destacar é como Shainee Gabel ao deglutir a dança da morte – não a medieval, mas aquela já metabolizada por Bergman – consegue convertê-la em canção de amor e nos apresentar de maneira lírica – sem desespero e ainda apresentando uma saída por meio da arte – esse eterno tema da irmandade gêmea entre a morte e o amor.
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