Uma canção de amor e uma dança da morte

Este texto comenta os filmes Um canção de amor para Bob Long e O sétimo selo. Contém spoilers

Uma canção de amor para Bobby Long é um dos meus filmes preferidos, e eu eventualmente escrevo coisas sobre ele desde a primeira vez que o assisti, ainda no ano de 2008.

Já escrevi sobre a bela trilha sonora folk, liderada por Grayson Capps, que fez para mim a ponte de volta às sonoridades da minha infância (das quais eu havia me distanciado quando o estudo da guitarra me bitolou nos dogmas do Heavy Metal).

Ou, quem sabe, antes disso, você encontre algum comentário meu sobre as constantes referências à Literatura em língua inglesa que não só atravessam todo o filme como o costuram, articulam e servem de esqueleto, sangue e ossos para seus personagens principais –  marginais, avessos do mito do “self made man” americano, dotados do profundo lirismo que acompanha os derrotados inteligentes e sensíveis de todos os tempos.

Mas hoje quero falar de uma coisa de que só esta semana me dei conta: uma citação de Ingmar Bergman na cena final do longa. Então, se você nunca viu esse filme e não gosta de spoilers, salve este post para ler depois e vá assisti-lo agora. 

No final do filme, a jovem Purslane (Scarlett Johanson) e o velho ranzinza, decadente e amargurado Bobby Long (John Travolta) descobrem que são pai e filha e têm suas feridas afetivas banhadas no unguento curativo do amor e da arte de Lorraine – uma cantora de jazz e folk de Nova Orleans, mãe de Purslane, que foi por um breve período amante de Bobby Long. Purslane conclui a High School e consegue uma vaga na Universidade, e todos os velhos amigos de Lorraine, como uma grande família, se reúnem para comemorar, no campo, no alto de um outeiro.

Cena do filme Uma canção de amor para Boby Long (2004)

Depois de um discurso eloquente de Bobby, o velho poeta, vamos ouvir a canção que Lorraine havia escrito para Bobby Long, inspirada no livro O coração é um caçador solitário, de Carson Mccullers, que ele, professor de Literatura, certa vez a havia dado. Purslane e Bobby Long dançarão a balada de Lorraine e numa transição suave a cena corta para o epílogo em que ela visita o túmulo de Bobby, deixando para ele o livro que tem o mesmo título do filme, que conta sua história.

Mas antes de eles chegarem ao último platô, Bobby, Lawson e todos os outros velhos amigos de Lorraine – cada um deles, de alguma maneira, um pai de Purslane- caminham em fila, recriando um dos planos mais belos da história do cinema: o final de O sétimo selo, de Bergman, quando o cavaleiro Antonius Block e sua comitiva são conduzidos pela morte em última dança.

As consequências dos anos de alcoolismo haviam deteriorado o corpo de Bobby e nós já sabíamos que, assim como o cavaleiro de Bergman – ele estava condenado. Também sabíamos – desde que a partitura da canção de Lorraine fora encontrada – que iríamos ouvir sua música antes de o filme terminar. A diretora Shainee Gabel, no entanto, ao citar o plano bergamaniano nos coloca diante de uma dobra barroca em que caminhar para uma canção de amor se torna, também, caminhar para a dança da morte. A ironia se aprofunda pois a dança de Bobby com Purslane é também a dança de sua vida. Ao contrário de Antonius Bock que chega ao seu destino sem as respostas que queria, Bobby Long encontra o sentido de sua vida no amor de uma amante que perdeu e de uma filha que mal chegou a encontrar, numa canção que esteve perdida por anos, em uma caixa empoeirada debaixo do seu nariz embriagado e entre amigos que, no mais das vezes, o que ele fez foi ofender. Bobby se parece mais com Jons, que no filme de Bergman produz suas soluções filosóficas na aconchegante sequência em que o grupo dos guerreiros e dos artistas improvisa um singelo piquenique com amoras silvestres e leite fresco.

Cena do filme O sétimo selo (1957)

De alguma maneira, o paralelismo entre os dois filmes é geral. Bobby e Lawson, como cavaleiro e escudeiro (decalque de Dom Quixote) atravessando um mundo periférico, perseguidos pela dúvida sobre suas escolhas na vida, tentando dia após dia ganhar algum tempo a mais da morte que lhes segue sempre de perto. Mas o que eu gostaria de destacar é como Shainee Gabel ao deglutir a dança da morte – não a medieval, mas aquela já metabolizada por Bergman – consegue convertê-la em canção de amor e nos apresentar de maneira lírica – sem desespero e ainda apresentando uma saída por meio da arte – esse eterno tema da irmandade gêmea entre a morte e o amor.

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