Ensaio sobre a morena

A morena é uma nota sol

deslizando meias-noites

na temporada das chuvas.

A morena é uma adivinhação,

uma cantiga de roda 

e um desenho obsceno.

Você não sabe o que é morena

até que seu corpo sonhe

correntes elétricas, fluxos de luz.

A morena é a boca da morena,

os olhos da morena,

a voz de vidro vermelho da morena,

ela é vício de poemas,

tradução herética do evangelho,

dadaísmo tropical nas fendas de um rio perene. 

A morena é o perfume que fareja,

a janela que vigia o raio, 

ela risca o céu da memória e dorme fotografias.

Morena-me, enamora-me

– mora em meu corpo e canções:

a morena faz vicejar os desertos de Jacob.

Beleza de açucena que rompe a dureza das rochas, como uma estrela encarnada que brota do chão para iluminar o céu, a morena se sentou na beirada do abismo e de lá sussurrou a linguagem da criação.

Deus é poeta, cria mundos com palavras

– a morena é o idioma de Deus.

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