Elisabeth Roudinesco é um dos nomes mais conhecidos na literatura sobre Psicanálise no mundo, e uma grande divulgadora do pensamento psicanalítico. Historiadora e psicanalista, é biógrafa de Freud e de Lacan, tem livros publicados em mais 30 idiomas e é coautora, com Michel Plon, de um famoso e importante Dicionário de Psicanálise. Professora da Universidade Paris VII – Denis Diderot, na Escola Prática de Altos Estudos, e mantém um seminário de História da Psicanálise na Escola Normal Superior.
Em uma série de conferências, promovidas pela Biblioteca Nacional Francesa e publicadas pela mesma em 2001, traduzidas para o Português por André Telles e publicada pela Jorge Zahar Editor em 2014 sob o título “A análise e o arquivo”, Roudinesco levanta questões sobre as relações entre Psicanálise e História, assim como ambas as ciências operam o arquivo e lidam com suas contradições – a partir de problemas suscitados pela gestão (teórica, política e econômica) dos arquivos.
São três conferências, sendo a primeira dedicada a Jacques Derrida e intitulada “O Poder do Arquivo”. A autora problematiza o uso do arquivo – às vezes visto como fiel espelho da realidade, às vezes suprimido, apagado ou destruído – e como a história, diante dessas incongruência pode-se ver ora como delírio, ora como fantasia. A segunda conferência é uma arqueologia do conceito de “estágio do espelho” em Lacan, e nela a autora mostra como, na prática, os sujeitos atuam sobre os arquivos, por meio de omissões, destaques, supressões, rasuras, retornos e abandonos, na construção de uma imagem do passado, mas também na construção das bases de si mesmo como passado.
A conferência que nos interessa aqui é a terceira. Intitulada “O culto de si e as novas formas de sofrimento psíquico”, é uma abordagem de Roudinesco sobre certo modo de subjetividade formatado e vigente em sociedades neoliberais – culturalmente alimentadas pelo mito do “empreendedor” (o “self made man”, aquele que faz por seus próprios meio e abre caminho com os próprios punhos), e sobre as práticas de classificação, diagnóstico e tratamento que nelas se conforma.
Para a autora o tipo de subjetividade que prospera nessas sociedades – cujo modelo são os Estados Unidos da América – é o de um ser humano a-histórico. Desprovido de passado e futuro, desconectado dos laços genéticos ou de qualquer outro tipo de noção de herança, tal sujeito se vê aprisionado pela própria imagem no espelho e lançado entre o que chama de narcisismo primário e narcisismo secundário. Gera-se um culto de si, que é alimentado e por e que passa a exigir um arquivo de si.
Ocorre, portanto, a substituição do Édipo (ressentido, atormentado pela autoridade paterna e pelo interdito) por Narciso, encantado pelo poder inesgotável que emana de si mesmo – um Narciso fadado à frustração e à desagregação do próprio ego, posto que detentor de uma autoimagem que não pode jamais coincidir com a realidade: não pode aceitar a passagem do tempo (velhice), nem a herança (o que implica em construção coletiva do patrimônio e, no limite, do próprio eu) nem tampouco o sucesso alheio.
Se Édipo representava o drama de uma sociedade dominada pelo poder patriarcal, Narciso representa o drama de um sujeito que substitui a tradição pelo deleite consigo mesmo e com os autocuidados (que não deve ser aqui confundido com o “cuidado de si” foucaultiano”) frequentemente manifestos na forma de autocuidados terapêuticos.
Outro efeito do narcisismo estrutural das sociedades neoliberais é a incapacidade efetivar encontros. Ele “acha feio o que não é espelho”, como diz Caetano Veloso em uma famosa canção. Assim, esse tipo de sujeito é a encarnação do ódio pelo outro, do ódio pela diferença, e consequentemente experimenta o ódio pelo outro (ou outros) que habita em si, o que se toma a forma paradoxal de autodesprezo – a incapacidade de reconhecer qualquer verdade fora de si torna-o também incapaz de confrontar a verdade em si.
Essa conclusão leva Roudinesco a perceber o vínculo mercadológico que esse tipo de subjetividade tem com o que estou chamando aqui de uma indústria do sofrimento psíquico. A constante demanda pelo autocuidado pela os sujeitos a buscarem constantemente a terapia – mas não uma terapia do tipo da Psicanálise que, por definição, exige o encontro. A psicanálise se faz do encontro do Inconsciente do analista com o do analisando, seu percurso é o amor transferencial e seu resultado inevitável é a análise. A existência da análise implica por o analista na condição de sujeito suposto saber e, em tese, a elaboração do analista emerge como uma verdade simultaneamente interior e exterior – o que para a subjetividade narcisista neoliberal é intolerável.
Assim, o sujeito evita o analista – que também pode ocupar o vazio do pai – e se lança ao arquivo de si para a produção de uma autoanálise. O sujeito não precisa se submeter nem ao encontro intersubjetivo, nem à palavra de poder/saber representada pelo analista. Deste modo, tais sociedades fazem emergir um modelo de instituição de gestão da psique – a palavra gestão é propositalmente escolhida por Roudinesco para criar um paralelo entre o saber psicológico/psiquiátrico/psicanalítico e o comportamento de mercado baseado em atendimento de demanda subjetiva, que eu posso evocar aqui na forma cristalizada “o cliente tem sempre razão”.
Ora, a gestão de Narciso compete a Narciso – o self made man é artífice de seu próprio destino e também de sua própria alma. Assim que os saberes da psique estão submetidos a um regime de mercado em que o próprio sujeito se analisa, se diagnostica e se prescreve tratamento. Isso cria a necessidade de afrouxar as regras da análise, do diagnóstico e da prescrição. Nesse ponto, Roudinesco aponta sua crítica para as transformações ocorridas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais – DSM, ao longo das décadas, sobretudo a partir dos anos 1970 até sua atualidade.
Para ela, o abandono de muitos conceitos, da nomenclatura de afecções, a absorção de entidades clínicas, outrora específicas, em uma só rubrica mais ampla e vaga, a própria substituição dos conceitos fortes de neurose, psicose e perversão pela terminologia frouxa de “transtorno” (disorder) vêm atender a dinâmica mercadológica que marca essa subjetividade característica de sociedades liberais narcisistas e como que transformar o campo da saúde mental em um fast-food de transtornos e terapias self-service.
Nesse contexto, o sujeito pode escolher livremente, de acordo com suas demandas imediatas, o transtorno e a terapia que mais se adequa ao seu desejo de consumo. Com o abandono da categoria “doença” e o enfraquecimento das definições, sendo as afecções agora classificada não como entidades clínicas mas como blocos sintomáticos de descrição genérica, praticamente qualquer comportamento ou afeto humano tornou-se passível de diagnóstico. O sujeito não é um doente, ele apenas apresenta determinado comportamento ou sentimento sintomático e, com isso, as síndromes se multiplicam, sem contudo produzirem quaisquer especificidade diagnóstica, terapêutica ou mesmo etiológica – qualquer desconforto pode ser enquadrado em uma síndrome.
Em relação à terapia, a mesma dinâmica se manifesta e elas proliferam, por assim dizer, ao gosto do freguês: desde a automedicação até a errância entre terapias “alternativas” as mais diversas – incluindo técnicas abandonadas pela Psicanálise em seus primórdios,como o toque e a hipnose, mistificação de fragmentos estéticos de disciplinas orientais, como a Yoga e o Tai Chi, chegando aos incontáveis métodos de autoajuda, à (re) programação neurolinguística, e outros modelos de autogestão.
Com isso, Elisabeth Roudinesco diagnostica uma crise psicanalítica, e sobretudo lança luz sobre suas raízes históricas – sociais, culturais, econômicas, jurídicas e políticas. A autora sugere um regime de subjetividade específico do novo século, sensivelmente distinto daquele advindo do século XIX, que foi objeto de estudo de Sigmund Freud, dos primeiros psicanalistas e até mesmo de Jacques Lacan e sua escola. Mas, de maneira contundente, ela mostra como o próprio arcabouço teórico produzido pela Psicanálise, em seu rico, profundo e diverso território de debates, tem utilidade e força para confrontar essa realidade, compreendê-la e intervir sobre ela, tanto como ferramenta de pesquisa social (o que ela empreende nas três conferências), quanto – e talvez principalmente – como ferramenta clínica.
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