Nós precisamos de poesia

Nós precisamos de poesia, porque somos feitos de poesia.

Quando ainda éramos animais selvagens, quase sem idioma e códigos, nos balançando em árvores e comendo alimentos crus, nós descobrimos o ritmo. E aprendemos a ritmar os nossos balbucios até fazer deles palavras e, com elas, fizemos histórias. E em torno das histórias que contamos inventamos um mundo novo sobre a folha do mundo natural — o mundo da cultura, da civilização: o mundo humano.

Nós precisamos de poesia porque o sol, em si mesmo, não basta — precisamos dizer que o sol é vida, porque o sol é luz. Mas também precisamos dizer que o sol é fogo. Então entendemos que a vida é fogo. E, quando amamos, dizemos que o objeto do nosso amor nos ilumina — ele é o nosso sol. E nos aquece — ele é o nosso fogo. Pois nosso amor é nossa vida. E então faz todo sentido a palavra de um poeta caolho que sangrava labaredas no caminho das índias: “o amor é fogo que arde sem se ver”.

No entanto, nem vida, nem sol, nem fogo, nem amor — nada basta. É a poesia que alinhava os pontos e aperta os nós (e o que somos nós em nossos pontos e apertos?) e nos faz caminhar nos fios — da narrativa, das navalhas.

Particularmente, sem a poesia, eu já estaria morto. Talvez ainda transitando nas calçadas. Talvez tivesse uma casa, dois filhos e fosse para o retiro no carnaval. Seria um zumbi, zumbindo as minhas ladainhas e andando sem saber porque, pra onde, com uma fome insaciável de coisas vivas na carne.

Mas tenho a poesia e morro a cada dia uma morte, e a cada dia faço nascer uma flor no meu cadáver — e renasço desta flor para uma nova travessia. E porque tenho a poesia é que canto meu canto torto de faca de ferro, de faca de pau. Tenho a poesia e porque a tenho eu toco minha guitarra de pinho e aço e deixo ecoar nas ruas e quartos a minha melodia de fogo — que é sol, que é vida, que é amor.

Por que tenho a poesia, sou uma vagalume do rock. Sou um cão sarnento na sarjeta da indústria — um bardo antiquado vagando como fantasma e fóssil no mundo digital. Faço das minhas invenções nonsenses e quase sempre infrutíferas — aquela figueira maldita que Jesus Cristo fez secar é minha irmã mais velha, minha primeira ancestral conhecida, minha antecessora no caminho do céu.

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