Sejamos francos, sou um péssimo leitor de poesia.
Sempre fui um péssimo leitor de poesia, e pretendo continuar a sê-lo até o último dos meus dias.
E isso não é culpa da poesia, mas dos poetas. Da performance mecânica e fingida dos poetas contemporâneos: mímicos, pantomimeiros de mistérios inexistentes.
Abro um livro de poesia: já me sinto diante de uma farsa. Repudio poetas tanto quanto repudio os crentes (posso ter exagerado na comparação).
Não obstante, eu penso que a poesia é o caminho para a salvação dos nossos corpos corrompidos por esta época medíocre. Sim, a poesia é tudo o que restou da nossa mais antiga e pura experiência espiritual – algo primitivo e verdadeiro, fruto de uma genuína necessidade de conhecer e sentir.
Mãe das artes, a poesia é mãe dos deuses. E o que são os deuses – refiro-me a deuses verdadeiros, não essa mercadoria desgastada vendida em púlpitos pentecostais: o que são os deuses se não a metáfora do desejo humano de se elevar? E se isso for verdade (não tenho certeza alguma que seja!), a poesia é o espelho da nossa insatisfação – o nosso tesão pelos dias vindouros, nosso impulso para fora de nós, para o miolo espermático do caos.
Poesia é sede de vida. E justamente porque – na medida exata da ejaculação de um cavalo – a poesia não se pode fingir, é que os poetas contemporâneos são tão decepcionantes. O uivo do lobo é mais verdadeiro que o lobo, e a máscara do pajé, mais do que todos os rostos da tribo – e se não for, será patética a existência da tribo… e do lobo.
Por isso prefiro a poesia das ruas, a poesia da conversa dos velhos – prefiro a poesia do canto. Por isso só me apetece ler aquilo que se escreveu no limiar entre a demência e o crime. Por isso gosto de guardar segredos e adivinhar coisas ocultas diante dos nossos olhos. Por isso leio poesia como quem espia um claustro, como quem segue um assaltante que segue um alvo – por isso sou um péssimo leitor de poesia.
O primeiro erro foi confundir poesia com literatura. O segundo, foi acreditar na possibilidade de uma crítica literária. Caminho sinuoso e equivocado, reducionismos lógicos sem correspondência na experiência real: o poema num tubo de ensaio, num plano cartesiano – assim como a filosofia é maior que a ciência e a religião é maior que a filosofia, a poesia é maior que o céu de deus e não cabe nem mesmo na psicanálise de Freud.
Sentei com Jesus Cristo na sombra de uma mangueira e conversamos sobre as epístolas de Paulo. Mas não posso passar trinta segundos na presença de um pastor, a não ser os hereges. Da mesma maneira, acredito na poesia, mas quase não posso tolerar poetas. E isso faz de mim um péssimo leitor de poesia.
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