Um astronauta mergulhou nu na atmosfera de um planeta desconhecido. As condições de temperatura e pressão e a composição química do ambiente imediatamente dissolveram seu corpo e fizeram seus átomos se fundirem em novos e desconhecidos gazes. Esta é a fábula do silêncio — é isto que acontece ao corpo humano que se priva de palavras. O silêncio é a atmosfera desconhecida de um planeta inóspito, inapto para a vida. Existimos e respiramos linguagem.
Não o silêncio densamente povoado da leitura ou do pensamento, em que as palavras se dizem. O silêncio das palavras, o silêncio da sufocação das palavras. Não o silêncio voluntário da sabedoria ou da charmosa soledade do poeta burguês, tampouco o silêncio dos apaixonados rejeitados ou dos cornos com justificativa, Não o silêncio da inefabilidade da beleza ou de deus. O silêncio afônico, o silêncio do vácuo, o silêncio da parada respiratória.
Quando a linguagem não é respirável, o corpo não sustenta sua arquitetura.

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