A aventura de tocar em uma banda

Nada se compara, em música, à experiência de tocar na banda, de estar junto de outras pessoas por quem se tem afetos e fazer brotar dali um som que ninguém mais poderia fazer soar.

Comecei a tocar guitarra aos 14 anos. Não em uma escola nem trancado no meu quarto com meus playbacks e minhas escalas. Aprendi entre amigos, compartilhando revistas de cifras e pedacinhos de solos e riffs. Aprendi a tocar como outros aprendem a jogar futebol — num clima de desafio, companheirismo, diversão e amizade.

A primeira guitarra em que toquei foi uma Giannini Supersonic toda ferrada que a gente achou no quintal de uma irmã da Primeira Igreja Batista Colina Azul (Aparecida de Goiânia — GO) junto com outras sucatas que ela nem queria guardar nem tinha coragem de jogar fora. “A gente”, no caso, éramos eu e dois amigos que me davam aulas naquele tempo. Na área de serviço do apartamento em que eles moravam a velha e abandonada guitarrinha made in Brasil ganhou nova cor, nova fiação, polimento nas ferragens, um encordamento novinho e voltou a fazer barulho. Fizemos muito som com aquele instrumento antes que a irmã começasse a pensar que iríamos nos apoderar de sua valiosa propriedade e a tomasse de nós para devolvê-la à segurança do amontoado de sucata no fundo de seu quintal. Deus a tenha em bom lugar! (A guitarra).

Sem saber, estávamos repetindo ali, bem no comecinho da minha aventura nas seis cordas, um velho rito de passagem pelo qual muitos instrumentistas do mundo todo haviam passado: o trabalho de fabricar o próprio instrumento, de operar sobre madeira e metal antes de operar sobre notas e timbres. Bryan May é só o mais famoso desses artesãos. Especialmente aqui no Brasil isso foi muito comum antes de as importações serem autorizadas na década de 1990.

Mas havia algo de mágico naquilo — além de uma superação da alienação industrial, do fetiche da marca, havia a criação de uma conexão com a máquina que ia além do mecânico. Mas, sobretudo, mais importante que qualquer coisa, estava ali a ligação afetiva entre cada um de nós. Éramos mais que tocadores de música: éramos amigos, um dando apoio ao outro, cada um fazendo uma parte do trabalho, cada um tocando uma canção depois que o instrumento ficou pronto. O amor pela música mediava o carinho mútuo entre os amigos, o respeito, a admiração, a gratidão. Foi assim que eu aprendi a tocar.

Por isso nunca consegui me unir a grupos cuja conexão não ia além do cachê e das horas de trabalho. Tocar, pra mim, é compartilhar um percurso, é apoiar quem está do seu lado, é viver histórias para contar histórias. Hoje eu sinto muito orgulho da Banda CasinoQuebec porque nela eu encontro esse sentimento de amparo, esses afetos positivos, essa beleza de viajantes que compartilham um caminho.

Isso se traduz em som. E nós sabemos que essa carga afetiva que nossa música carrega atinge também quem nos escuta. Nada se compara, em música, à experiência de tocar na banda, de estar junto de outras pessoas por quem se tem afetos e fazer brotar dali um som que ninguém mais poderia fazer soar.

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