Terra dos poetas X Terra dos leitores

Quem somos nós para lá das fronteiras do mito?

Caxias, terra dos poetas. Qualquer pedra ou pedaço de pau em Caxias conhece o refrão. Para alguns, ele soa como um distintivo, uma confirmação, uma marca identitária que os insere num portentoso quadro a ser sempre celebrado. Para outros, soa como um clichê piegas e inútil, vez que raramente essa “terra” e essa “poesia” vão além dos versos iniciais da Canção do Exílio.

Nem estes nem aqueles estão completamente certos ou errados. É verdade que o ufanismo tem natureza conservadora, cerimonial — na melhor das hipóteses, decorativa. De modo que, do ponto de vista da arte, não há ganho algum em celebrar uma mítica terra dos poetas em que quase ninguém lê poesia ou onde a poesia que ordinariamente se faz não é disruptiva nem perturbadora da ordem (portanto, uma poesia a serviço do status quo, haja consciência disso).

Por outro lado, enquanto existem cidades que lustram as figuras de assassinos de índios, escravizadores de africanos, exploradores de operários, militares torturadores e outros tipos de sanguessugas do colonialismo, do capitalismo ou da ditadura, Caxias considera ilustres seus escritores, seus poetas. Mesmo que, em certa medida, isso exija emasculação e docilização da potência dionisíaca inerente a qualquer forma de arte verdadeira, essa mitificação de artistas ao invés de opressores deve ser considerada como uma conquista cultural, civilizacional.

Mas quem somos nós para lá das fronteiras do mito? Como converter esse “ace of spades” que o discurso identitário nos oferece em conquistas culturais reais, na prática? Antes de qualquer coisa, não seria válido perguntar se a terra dos poetas não deveria ser justa e automaticamente a terra dos leitores?

O fomento á leitura não deveria ser uma de nossas prioridades enquanto sociedade e por meio da gestão da educação e da cultura? Escritores são um ativo político, cultural, econômico, científico pertencentes a toda a sua sociedade. Novas gerações de escritores não brotam por milagre — elas germinam no solo da leitura. De milhares de leitores regulares sairão centenas de leitores bons; deles, sairão alguns escritores medianos e desses últimos um ou dois escritores admiráveis.

Tudo começa com a leitura. E a leitura não pode continuar sendo vista como instrumento de controle, castigo ou como ferramenta para a aquisição de postos de trabalho. A leitura deve ser apresentada como um valor em si mesma, uma conquista em si mesma, como um prazer e um charme em si mesma. Ao mesmo tempo, precisamos retirá-la da célula do indivíduo e começar a entende-la como uma produção social.

Assim, em todas as sociedades do passado, a transmissão dos saberes e das habilidades essenciais às novas gerações é responsabilidade da comunidade, embora estas só se realizem na ação dos indivíduos, também nossa percepção da leitura dever assim. Mesmo que ela seja performada no corpo do sujeito, é responsabilidade social a produção da leitura como hábito, como rito, como gesto, como ato. Mais do que em outras, essa responsabilidade é basal numa terra que se diz “dos poetas”.

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