Um método perigoso: apontamentos sobre teoria psicanalítica no filme de David Cronenberg

Zurique, Suiça – agosto de 1904. Dentes cerrados e olhos em brasa, uma jovem de cabelos dourados grita e se contorce em um evidente ataque histérico no interior de uma carruagem. Enquanto dois homens a dominam, a carruagem segue elegantemente, com seus cavalos puro-sangue, acabamento preto e sóbrio de ar vitoriano, pela estrada limpa que corta a paisagem bucólica e primaveril do vale do Limmat. Estaciona em frente à Clínica Burghözli – a mulher é Sabina Spielrein, ela será tratada por Carl Gustav Jung.
É com esta cena tão sintética que David Cronenberg inicia o filme “A Dangerous Method” (Um método perigoso, no Brasil), de 2011. Trata-se de uma narrativa que entrecruza as biografias das duas personagens acima citadas com a de Sigmund Freud, e que conta de maneira transversal, indireta, sugestiva, a gênese da própria Psicanálise, de algumas de suas vertentes – como as de Spielrein e Otto Gross, que também aparece no filme – e de sua principal dissidência, a Psicologia Analítica, fundada por Jung.
O filme mostra, a partir do tratamento de Sabina Spielrein um momento do desenvolvimento do método psicanalítico que, àquela altura, já havia superado a abordagem hipnótica e se encaminhava para a abordagem pela associação livre. Jung realiza no filme o conhecido “experimento de Zurique”, que consistia em oferecer ao paciente palavras vetores para que ele respondesse o mais rápido possível com a primeira palavra que lhe ocorresse. Este pode ser considerado um precursor da técnica canônica de Freud, da associação livre, que pode prescindir de vetores e consiste basicamente na fala livre, aleatória, sem censura do paciente, a fim de que por meio do arrefecimento das defesas possa acontecer a emersão de conteúdos recalcados.
Certos diálogos no filme são como cenas fundadoras – como sínteses mítica da eclosão de noções fundamentais. Por exemplo, há uma cena em que Jung, sendo aquele seu primeiro encontro com Freud, fala incessantemente e com entusiasmo durante mais de treze horas. A cena funciona como uma metáfora de uma das características do inconsciente: a atemporalidade. Segundo Freud, o inconsciente não tem noção de cronologia, pois nele não existe passado nem futuro, apenas o presente contínuo e infinito da emergência do desejo, da pulsão e do instinto.
Em um diálogo entre Jung e Spielrein, ainda durante o tratamento, antes de ela chegar a uma elaboração satisfatória de suas energias libidinais reprimidas, eles estão caminhando por uma trilha no bosque que circunda a clínica, e ao se aproximar o assunto do objeto da angústia da paciente, ela tropeça – representação do ato falho. A angústia da paciente era gerada por uma cena da infância, em que ela sentia excitação ao apanhar do pai, e depois dos irmãos – ao ver Jung bater em seu casaco, para o limpar, ela desencadeia uma crise. Ela viu no ato do psicanalista uma representação do desejo inaceitável e, como não podia aceitá-lo conscientemente, a energia libidinal foi deslocada para o sintoma. Temos aí a representação da fantasia (o homem batendo no casaco substituiu o pai batendo nela mesma) e também do conceito de deslocamento (a energia libidinal que não podia ser satisfeita na realidade era remanejada para a manifestação do sintoma).
Alguns outros aspectos da clínica psicanalítica são encenados no filme. Spielrein começa a manifestar melhoras, mas o Dr. Jung tem que se afastar por alguns dias, então ela manifesta comportamentos infantis, como brincar com a comida, jogar-se na lama, espernear – não em um contexto de crise propriamente. Isso expressa o que o método psicanalítico entende como demanda de amor, ou demanda de cuidado do paciente. Ela não queria exatamente a cura, mas desejava a atenção do analista. Temos aí a antessala de um outro conceito que é parte do processo da análise e que também é exposto no filme: o amor transferencial.
Para que a análise possa ser bem sucedida, é necessário que o analisando “apaixone-se” pelo analista – que seja criado o vínculo afetivo, pois a análise não é apenas uma intervenção do analista sobre o inconsciente do analisando – ambos os psiquismos estão envolvidos nesse processo. No caso de Spielrein e Jung, esse amor ganha as proporções de um romance. E o desenvolver de sua relação mostra as diferentes faces que o amor transferencial por ter: confiança, afeição, imitação, hostilidade. Por fim, chega ao ponto em que Jung já não pode analisar Spielrein, pois a análise chega ao ponto de questões psíquicas que o próprio analista não havia elaborado em si mesmo.
Entre os temas da teoria psicanalítica que o filme faz emergir – como a interpretação dos sonhos, há dois muito importantes. O primeiro é o ponto de conflito entre Freud e Jung: a questão da libido, da pulsão sexual como único articulador e força motriz do psiquismo e, consequentemente, da psicologia. Freud é irredutível quanto a isso, enquanto Jung insiste em “purificar” a linguagem psicanalítica, bem como seu instrumental conceitual, a fim de romper resistências do público moralista e firmar a Psicanálise como ciência. Freud considera a postura de Jung moralista em si – metaforicamente, um mecanismo de defesa.
O segundo tema é o da pulsão de morte. Tendo como ponto de partida a própria análise, Spielrein enuncia pela primeira vez que a libido não busca apenas o prazer ou a autoconservação, ela também deseja a dor e a destruição. Dotada de uma sexualidade desviante – masoquista – ela teoriza sobre ser a relação sexual uma forma de aniquilação, em que os dois egos se desintegram na formação de um terceiro, quiçá um monstro.
Para encerrar este texto, retorno à imagem inicial do longa, em que o diretor David Cronenberg encenou em poucos segundos o denso arcabouço teórico da Psicanálise: a carruagem elegante, vestida de recatada aparência vitoriana, é o ego – a superfície do psiquismo que faz o contato com o mundo externo e que deve se mostrar segundo determinadas normas (princípio da realidade. Mas dentro da carruagem-ego, sob as cortinas do consciente, um conflito bestial está instalado entre as pulsões primitivas do Id – representado pela mulher que urra, morde e se contorce animalescamente – e as exigências, censuras e restrições sociais (egóicas) de um lado, e morais (superegóicas) de outro, representadas pelos dois homens que, com firmeza, mas a um passo de não mais poder, se esforçam para dominá-la.
Esta cena possui um aspecto mítico: aquela carruagem-ego em que o conflito interno tinha tomado proporções insustentáveis vai buscar auxílio em um lugar, uma clínica, o setting psicanalítico, ou, expandindo a metáfora: a Psicanálise.

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