O estilo é a resposta

ANOTAÇÕES SOBRE UMA ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA

Nada faz diferença, a não ser o estilo. Ah! Uma vez que haja estilo, tudo brilha com uma nova luz. Até mesmo as trevas reluzem, como a tinta de um piano. Se minhas botas são foscas ou envernizadas; se lixo ou não as unhas; se, ao beber cerveja, abro a boca ou faço bico. Até a posição dos fios do cabelo importam na termodinâmica do estilo, quando se caminha sobre a linha invisível do estilo.

“O estilo é a resposta”, disse Charles Bukowski. Mas ele não foi o primeiro a encontrar na estética a justificativa para a existência. Longe disso, de Sêneca a Oscar Wilde, passando por Nietzsche e Rimbaud, há uma miríade de pensadores/sofredores que olharam fundo nos olhos do abismo e reconheceram na beleza uma razão plausível para tolerar uma existência simultaneamente insignificante e sem sentido.

De fato, a existência simultaneamente insignificante e sem sentido a que me refiro não eram as existências específicas de cada um dos autores mencionados: a existência, a vida, o universo… Todas as coisas que existiram e existirão são igualmente aleatórias, arbitrárias, descartáveis, fortuitas e irrisórias. Faça uma coisa: está bem: faça outra completamente diferente – isso não afeta em nada a tolice intrínseca do existir.

Os charlatões estão nos púlpitos. Mata-se em nome do amor. Criminosos são eleitos para acabar com a corrupção. Acorde, tome banho, seja um bom trabalhador; acorde metamorfoseado em rola-bosta… é tudo absurdamente insignificante. Mate o presidente Kennedy: nada porá fim à canseira e ao enfado do vento e do sol que giram eternamente sem chegar a lugar algum.

A música é cúmplice desse absurdo. Cante uma melodia e eu posso harmonizá-la, a meu único e exclusivo critério, em tom maior ou menor, ou em algum modo híbrido, ou até mesmo em um esquema atonal – e isso simplesmente não terá nenhum significado. Segue a vida em sua inutilidade, seguem as luzes coloridas sobre trilhas de asfalto, segue a escuridão profunda nos olhos famintos, o rancor dos hipócritas, a resignação dos fodidos – segue a vida, a morte, o baile… Segue esse redemoinho sanguinolento de barulho e fúria ao qual os corpos – normalmente – se apegam e que, por conveniência, chamamos vida.

Nada faz diferença, a não ser o estilo. Ah! Uma vez que haja estilo, tudo brilha com uma nova luz. Até mesmo as trevas reluzem, como a tinta de um piano. Se minhas botas são foscas ou envernizadas; se lixo ou não as unhas; se, ao beber cerveja, abro a boca ou faço bico. Até a posição dos fios do cabelo importam na termodinâmica do estilo, quando se caminha sobre a linha invisível do estilo.

Cá entre nós, o grande problema deste mundo horripilante é que ele é terrível e desesperadoramente cafona. Existe cafonice passeando pelos mercados, usando jóias de diamante, escrevendo livros de poesia, assinando com caneta BIC. Os cafonas zanzam pelas ruas como zumbis, balbuciando jargões, tartamudeando respostas pré-moldadas para questões que não sabem formular. Os cafonas e suas instituições, suas gramáticas, seus tristes troféus que mais confirmam do que confrontam a mediocridade que eles sentem doer como hemorróida. E como hemorróida, o cafona tenta fingir que a cafonice não existe – debalde! todos sabem, só pelo seu jeito de andar.

De modo que o estilo é a resposta. Além de conferir à vida a elegância que ela, em si mesma, não tem nem poderia, o estilo é uma forma de revolução contra a qual não existe reação. O reacionário é, em si, um cafona – o estilo o humilha. Ninguém pode te prender por ter estilo, embora você possa (mesmo com estilo) ser preso por um milhão de outras coisas. Eles podem se ressentir e o incriminar injustamente, mas não podem confessar, comemorar, orgulhar-se – faça o que fizer, o reacionário será sempre um triste. O estilo é alegria, mesmo na derrota. Oscar Wilde recebeu a morte com soberba em seus últimos e miseráveis momentos num moquifo: “Não aguento mais olhar para este papel de parede”, disse ele. E isso é ter estilo.

O estilo é a razão porque o gato caça, mesmo que não esteja com fome. É por causa do estilo que o ser humano dança, que o artista tem amantes. Rum! Porque tenho estilo, sei o momento exato em que devo usar ponto-e-vírgula ou travessão; sei quando uma palavra suja será mais bela do que um termo culto e quando uma nota dissonante soará mais atraente do que uma harmonia perfeita. O estilo vem da incoerência, do paradoxo. Sócrates foi um  dos primeiros a ter estilo. Antes dele, Heráclito. E ainda antes, penso eu, Homero.  “João do Santo Cristo era santo porque sabia morrer” – Renato Russo, com toda certeza, entendia de estilo.

O estilo é a resposta, porque estilo é invenção. Porque não existe Deus nem Inferno e não existe o Oráculo de Delfos com seus enigmas de sabedoria. Hermes Trismegisto é apenas uma personagem de poesia e as asas da borboleta não provocam furacão, em lugar nenhum do mundo. O estilo é a resposta, porque o estilo vem do método, vem do controle do processo – estilo é um conhecimento especializado, é o fundador de um microcosmo autossuficiente, mas não isolado. Estilo é conexão, porque é sintaxe sem gramática. Estilo é uma nota extremamente sutil gemida por uma mulher que goza com a dor e sabe que seu gozo é inimitável.


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